Uma lição de Rocky e Adrian

Por Lourival Souza

Alerta: Spoilers! Spoilers!

Quem cresceu nos 90 certamente assistiu aos filmes do Stallone: músculos, porradas, explosões, tiros, donzelas e vilarejos em perigo. Rocky, de longe, foi o que mais me encantou. O boxe e sua classe, a trilha sonora, um grande desafio e um homem a altura deste. Por anos a minha impressão e a de muita gente (por ser nova, talvez) era de que se tratava de um filme de boxe, no máximo um drama de boxe, afinal, a luta era o clímax.  Assistindo ao sexto filme, em que o veterano Rocky volta a lutar, o drama fica mais claro. Confesso que achei em muitos momentos meloso, mas aí me dei conta que tinha uma razão, uma senhora razão: a saudade de Adrian não apenas o deprimia, mas o atacava ferozmente. Foi quando entendi que Rocky vagava como um guerreiro sem guerra, como um cão fiel que perde o seu mestre. Adrian era o elemento que faltava, aquela moça encabulada, quatro-olhos era a força e o equilíbrio do garanhão italiano.

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Adrian Pennino, Rocky (1976).

A série começa com um dos quadros mais bonitos do cinema, um close no rosto de Cristo que vai se abrindo à medida que revela uma luta, onde nosso protagonista e sua patada são apresentadas. O filme segue e descobrimos que o brucutu é um cobrador de dívidas, mas um gigante gentil, péssimo para o negócio. Ele bate, intimida, mas não há nenhuma crueldade, é quase um irmão mais velho. Sua misericórdia ainda que seja um problema – pois seu patrão já lhe deu uma bronca – faz com que sua inocência seja percebida por quem o rodeia. Rocky é um marginal, um anônimo, e isso pouco o incomoda, exceto por não ter a atenção da única pessoa que importa: Adrian Pennino, a irmã de seu único amigo, Paulie Pennino, um boçal, bêbado, mal-educado e ferrado de grana que nem ele.  Rocky treina boxe nas proximidades e todas as noites há pelo menos três anos vai ao petshop puxar papo e contar suas piadas sem graça, sem sucesso, ela é uma tímida de marca, e quando responde é quase inaudível ou com uma muda negativa. Ele lida bem com isso, afinal, é um lutador nato. A vida dura (e será assim para sempre) não lhe transformou em um bandido ou gente da pior espécie e nem lhe fez desistir, isso é ser um vencedor.  A persistência é um dia recompensada pelas linhas tortas, Paulie ordena que Adrian saia com Rocky, ela corre para o quarto aos prantos, mas para nossa surpresa, ela resolve sair, séria e pronta para o encontro como se nada tivesse acontecido.  Depois de algumas voltas eles acabam no apartamento do pugilista, ela relutantemente entra, pois já desconfia. E ao entrar temos uma nova surpresa: qualquer outra mulher estaria se borrando de medo de ser atacada, mas Adrian está apenas tímida, Rocky avança, ela está na defensiva, mas para proteger seu coração e lá no fundo sabe que pode confiar nele. O beijo acontece. É um caminho sem volta.

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O primeiro encontro.

Pouco tempo depois, a sorte lhe joga no colo uma luta com o campeão, sua primeira luta oficial seria com o mais completo boxeador de todos os tempos, Apollo Creed. Uma chance que esperou por toda sua vida, mas isso começa a pesar, duvida até mesmo de sua capacidade, com toda razão. Ele não recua, dá o melhor de si e chega ao empate. Ele conseguiu, e só uma coisa lhe passa pela sua massacrada cabeça: Adrian. A luta é secundária, enquanto todos ouvem atentos ao resultado da contenda, ele procura na multidão sua Adrian.

No segundo episódio, depois de um belíssimo pedido de casamento (eu achei), casam-se e esperam seu primogênito. A revanche foi arranjada. O dinheiro chega, Rocky quer dar o melhor para sua mulher, ela quer ser econômica, ele não. Tudo parece ir bem, mas por um revés, voltam a pobreza. Ele não faz corpo mole, dá duro no novo emprego, é um peão. Ele treina para a revanche, mas Adrian está apreensiva. Os treinos seguem no automático, a sua motivação está ligada à de sua esposa, a grande revanche não lhe preocupa, só sua amada. Ela adoece e entra em coma, ele não pensa duas vezes. É do quarto para a capela, da capela para quarto, todos os dias implorando aos céus pela saúde de seu amor. Deus atende, ela acorda e lhe pede apenas uma coisa: VENÇA!  Rocky está a 200%. O resto nós sabemos.

Rocky pede a mão de Adrian

Rico, famoso e até então, invicto (episódio III), Rocky perde seu amado treinador Mickey (que merece um artigo) ao mesmo tempo que sofre uma humilhante derrota para Clubber Lang. Apollo, antes seu desafiante, agora é seu treinador. Balboa se hospeda em um hotel chinfrim (exigência de Apollo), Adrian vai, e sentimos que faz toda a diferença. Ela jamais é uma distração, eles são um só. Sem Adrian, ele não é mais ele. A morte de Mickey o desestabilizou bastante, e haja luta para que ela volte, mas volta. E o garanhão Italiano, massacra Cluber Lang, com a  classe do seu novo estilo de lutar.

Rocky nunca para de trocar socos com a vida, hora bate, hora apanha, e a vida joga pesado. Apollo morre em uma luta (episódio IV). O desejo de vingar o amigo o leva a um país hostil, Duke o treinador de Apollo é seu novo “técnico adotivo”, o treino segue pesado. Ele está do outro lado do mundo, longe da família. Vai passar o natal por lá. Quem aparece de surpresa? Sim, a outra metade de Rocky. Se ele era pedra, agora é ferro. Treina como um mostro, Ivan Drago, uma parede russa, enfrenta Balboa em seu auge físico e motivacional. Mais outro para conta do casal.

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Adrian vai a Rússia.

Aposentado (episódio V), a vida não lhe dá trela, manda outro cruzado: perde toda sua fortuna e volta a ser um pobretão. Se ele não amoleceu pela vida, ela tão pouco. A vida segue e sempre seguirá se ela estiver junto, é o seu muro de arrimo. Mais um round para Rocky e Adrian.

Voltamos ao começo, Rocky perde sua esposa para única batalha que ele não pode travar por ela: o câncer. Que agonia sentiu ao assistir o amor de sua vida ser massacrado por este impiedoso enfermo. Agora é ele quem passa a sofrer de um outro câncer: a saudade combinada com inconformismo. O monstro cresce a cada dia consumindo sua alma. Rocky está sempre triste, mas não me lembro de vê-lo chorar em nenhum momento.  Rocky não fala pelos olhos, mas pelos punhos. O suor e o sangue fazem as vezes das lágrimas e das palavras. Ele arranja uma luta com outro campeão. A cada golpe que dá (e recebe) o monstro vai sumindo. Depois de vários assaltos, a luta acaba com um silêncio de despedida, tal qual um belo réquiem. No final da sua primeira grande luta sua expressão dizia: “Eu consegui, Adrian, eu venci, eu te amo”, e nesta “Eu te amo, Adrian, não vou desistir, até breve”.

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“His whole life was a million-to-one shot”. É algo como: as chances de sua vida darem certo eram uma em um milhão.

 

Lourival Souza é presidente do Instituto Expresso Liberdade, colaborador da Associação Cultural São Thomas More, graduado em gestão financeira, tem experiência no mercado de investimentos e educação, é mestrando em Economia Política pelo Swiss Management Center e ex-presidente da Federação Maranhense de Empresas Juniores.

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Lourival Souza

Lourival Souza é presidente do Instituto Expresso Liberdade, colaborador da Associação Cultural São Thomas More, graduado em gestão financeira, tem experiência no mercado de investimentos e educação, é mestrando em Economia Política pelo Swiss Management Center e ex-presidente da Federação Maranhense de Empresas Juniores.

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