Uma definição cristã de trabalho

Por Francisco Bezerra

A resposta automática que vem à cabeça de qualquer brasileiro ao ser perguntado o que ele faria se ganhasse um prêmio milionário é, em quase 100% dos casos, deixar de trabalhar. Pode confessar, você também pensou isso. Essa forma negativa como se percebe trabalho hoje se deve a dois principais fatores: trabalhar numa sociedade de consumo sempre ávida por resultados é algo maçante e, muitas das vezes massacrante; e as pessoas perderam completamente a percepção do verdadeiro sentido do trabalho.

O trabalho, antes de mais nada, é um ato definido desde o princípio da criação. Ao criar o mundo e todas as coisa que há nele, Deus deu ao homem um objetivo específico: “cultivar e guardar” as demais coisas que havia criado. Isso está no livro de Gênesis. Deus deu ao homem a soberania sobre as demais coisas criadas. Partiu daí uma primeira hierarquização e ordenação da criação.

Desde o princípio do mundo, o homem tinha um trabalho, um ofício. O próprio ato da criação é colocado em Gênesis como um “trabalho”. Deus fez tudo que havia de ser feito em seis dias e ao sétimo dia descansou de seu trabalho.

O Criador nos fez a sua imagem e semelhança e, como tais, somos dotados da capacidade de criar e transformar tudo, diante das coisas que Ele próprio criou e ordenou. Portanto, o trabalho pode ser entendido originalmente como um ato criador, um processo de produção e transformação das coisas em prol da sua manutenção própria e de todo o consórcio humano.

A Doutrina Social da Igreja distingue o trabalho como dotado de dois caráteres, o individual e o social, os quais se relacionam em 3 dimensões. A primeira, seria a dimensão pessoal e familiar, que põe o trabalho como um instrumento de sustento próprio e da família. Sem um meio de sustento, fica inviável a constituição das famílias e a obtenção da propriedade, portanto, é fundamental para a sociedade que se ofereça condições dignas de trabalho para os cidadãos. Ademais, é através do trabalho que o homem pode desenvolver primordialmente relações interpessoais com as quais pode exercer as práticas da virtude na convivência com o próximo.

A segunda dimensão trata do trabalho como ato que se relaciona com toda a sociedade. Quem é funcionário, presta sua mão de obra para uma empresa, que por sua vez se relaciona com clientes, fornecedores, governo, investidores etc. O trabalho deve, portanto, visar não só um bem para si como para aqueles aos quais ele se relaciona diretamente. A partir daí chegamos a terceira dimensão, que é a mais ampla de todas, a qual se refere ao Bem Comum. O trabalho, além de fornecer benefícios a sociedade em geral, deve permitir que o trabalhador preste um bom serviço ou produza coisas que beneficiem a todos.

É necessário também que ele receba por isso um pagamento justo, que o permita não só atender suas necessidades básicas como também poupar algo do seu ganho. Só assim ele pode garantir o direito de ter sua propriedade.

A modernização dos meios de produção, das relações comerciais e o recrudescimento da sociedade de consumo nos países da Europa, Ásia e América do Norte acabou afetando fortemente o Brasil. Fomos inseridos numa lógica em que o trabalho acaba por muitas das vezes perder este sentido original. A percepção das diversas dimensões do trabalho tornou-se muito difusa e abstrata. A mentalidade individualista e materialista nos relegou uma compreensão de que o trabalho tem como objetivo ou apenas o sustento ou a obtenção de riqueza.

O sentido social do trabalho não está arraigando no sentimento da grande maioria das pessoas. O exercício de um ofício profissional e feito com o sentido exclusivamente monetário. Por isso, muitas das vezes, ele acaba por se tornar maçante, sem significado, automatizado, mesmo quando se ganha altos salários. Pois o salário e o lazer são compensações para o trabalho, que é tido como um “sacrifício”. Nesta sociedade, o trabalho não tem uma função maior, um sentido espiritual nem mesmo algo voltado ao Bem Comum, é apenas determinado do ponto de vista dos custos e benefícios. O filósofo inglês Ernest Fritz Schumacher diz que partir daí o trabalho perde todo o significado, e faz com que o maior desejo do empregador seja produzir sem ter o custo dos empregados e do empregado, ter renda sem ter que trabalhar.

Quando aquilo do qual você tira seu sustento é visto como um sacrifício que deve ser feito para que se atinja um determinado grau de estabilidade financeira ou até mesmo a riqueza, o acúmulo de bens acaba por ser a finalidade máxima do ser humano. Tudo na vida das pessoas passa a girar em torno do dinheiro e isso afeta toda a sociedade. Incentiva-se a mentalidade de cobiça, de busca pela riqueza, da posse de bens, o que desencadeia o egoísmo, a inveja, a vaidade e toda a sorte de vícios.

A própria necessidade de bens e produtos que a propaganda mercadológica impõe artificialmente na sociedade através da mídia estimula ainda mais esse fenômeno.

Fica fácil perceber com a apresentação desses fatores o quanto essa lógica perversa acaba por promover a degradação moral das famílias e da sociedade. Ao longo da História, em contraposição a isso, apresentou-se diversas alternativas, entre elas, o engodo do Marxismo. Os marxistas dos séculos passados e os mais atuais identificaram vários desses problemas, mas apresentaram soluções que estimulam da mesma forma a inveja, a corrupção moral, a fragmentação da sociedade, a destituição da família, voltam-se contra a propriedade privada e o pior: invariavelmente descambaram para o totalitarismo.

Francisco Bezerra é jornalista, empresário, ativista político e coordenador do Núcleo de Sociedade e Família do Expresso Liberdade

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