Silvio Santos x Sheherazade: qual o verdadeiro problema?

Por Francisco Bezerra

Ganhou bastante repercussão nas redes sociais o constrangimento sofrido pela jornalista Rachel Sheherazade na premiação do Troféu Imprensa. O fato tomou relevância, principalmente, porque a saia justa foi promovida pelo seu próprio chefe, o apresentador e dono do SBT Silvio Santos, o qual revelou a pressão que sofre por conta das opiniões de alguns de seus funcionários. Sheherazade foi premiada como melhor apresentadora no voto dos internautas. Ao se apresentar para receber o troféu das mãos do próprio Silvio Santos, foi criticada ao vivo pelo chefe pela acidez de seus comentários. O dono da emissora afirmou de forma irônica que se ela quisesse dar sua opinião, que ela comprasse uma emissora ou fosse para outra. O seu papel no SBT é dar notícias e não opinião.

Ao contrário do que se pode imaginar numa primeira impressão e a despeito da forma inadequada como foi dito tudo isso, a atitude de Silvio Santos não é um fato isolado em si. Não se refere exclusivamente a Sheherazade. Ele, por diversas vezes, já cobrou ao vivo outros funcionários para que tivessem mais objetividade no seu trabalho jornalístico. O dono do SBT tem uma concepção de jornalismo baseada em escolas norte-americanas, que no final do século XIX e começo do século XX, acreditavam que o jornalismo deveria ser feito com objetividade e imparcialidade. O jornalista deveria ser um observador isento dos fatos e a notícia deveria expressar um espelho da realidade, retirando dela, ao máximo, qualquer juízo de valor subjetivo do autor da reportagem.

Esse formato de notícia foi por muito tempo defendido por diversos teóricos, jornalistas e empresários, porque era o que mais se adequava a dinâmica comercial na qual se inseriam os jornais. A notícia, como um produto, deveria ser feita de forma neutra, para alcançar o maior público e captar o maior número de anunciantes possível. Essa reprimenda dada pelo Silvio Santos é uma verdadeira aula de Teoria do Jornalismo. É uma rara oportunidade de saber o que verdadeiramente pensam os donos de emissoras, o que os empresários que, tendo apenas o interesse comercial do seu negócio em jogo, pensam sobre a atividade jornalística.

Incrivelmente, no Brasil, o maior financiador da mídia é o governo federal. Anualmente, são centenas de milhões de reais investidos em propaganda estatal, que são repassados a TVs, rádios, jornais, revistas, sites etc. Inclui-se aí propagandas de bancos, empresas estatais e empresas paraestatais, que prestam serviço quase exclusivamente aos governos.

Isso faz com que um dos instrumentos mais poderosos de controle da mídia não seja o seu público nem o setor privado, mas o Estado. Soma-se a isso o fato de que a radiodifusão no Brasil é um bem de concessão pública. Só tem direito de possuir uma emissora de televisão ou de rádio quem tem uma concessão emitida pelo governo, a qual deve ser renovada – ou não – periodicamente.

Em 2014, mesmo sendo uma das jornalistas mais admiradas do Brasil por suas opiniões fortes, Sheherazade foi proibida de fazer comentários durante a apresentação do “SBT Brasil”. A partir de duas representações movidas, uma pelo deputado do PSOL Ivan Valente e outra pela deputada do PCdoB Jandira Feghali, contra a jornalista, o SBT proibiu comentários em seus telejornais. A justificativa dada pela emissora foi a de preservar seus profissionais.

O fato é que a Procuradoria Geral da União moveu naquele ano contra o SBT uma ação para que fossem congelados os repasses de verbas publicitários do governo a emissora. No ano anterior, a emissora teria recebido cerca de R$150 milhões para veiculação de propagandas estatais.

A questão envolvendo essa saia justa entre Silvio Santos e Rachel Sheherazade é bem mais complexa do que parece inicialmente. Pois ela trata de distintas visões do papel do jornalismo, de financiamento da mídia, de controle estatal, de liberdade de imprensa e da conturbada relação entre o bem público que é a informação e os diversos interesses econômicos e políticos por trás dela.

Francisco Bezerra é jornalista, empresário, ativista político e diretor executivo do Expresso Liberdade.

Lourival Souza é presidente do Instituto Expresso Liberdade, colaborador da Associação Cultural São Thomas More, graduado em gestão financeira, tem experiência no mercado de investimentos e educação, é mestrando em Economia Política pelo Swiss Management Center e ex-presidente da Federação Maranhense de Empresas Juniores.

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Lourival Souza

Lourival Souza é presidente do Instituto Expresso Liberdade, colaborador da Associação Cultural São Thomas More, graduado em gestão financeira, tem experiência no mercado de investimentos e educação, é mestrando em Economia Política pelo Swiss Management Center e ex-presidente da Federação Maranhense de Empresas Juniores.

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