Reflexões para o movimento liberal e conservador

Completo em 2016, dez anos de envolvimento com a divulgação das ideias liberais, conservadoras e tudo que achei necessário defender. Comecei na faculdade e não parei desde então: DA, DCE, partido político, estudos, leituras, conversas, editora, eventos e a fundação de dois institutos. Uma boa bagagem. Assisti nesse período uma escalada de popularidade que sequer imaginei: institutos, eventos, tendências, adesão de celebridades e as editoras. Estas últimas, o salto da década.

Mas será que estamos administrando bem o momento ou sendo levados pela euforia? Uma combinação dos dois, com uma predominância de 80% do segundo. Por isso, é necessário reavaliar os rumos, as práticas, de forma a consolidarmos um núcleo perene que seguirá tanto na alta quanto na baixa.  As linhas que seguem trazem algumas reflexões e apontamentos sobre a cena e o que precisamos fazer pelo seu futuro.

Mas afinal, esse é um texto para liberais ou conservadores? Para todos, ora mais para um, ora mais para outro, mas é essencialmente para aqueles que se propõem a pensar sobre a sociedade e cujo compromisso é a busca da verdade.

A consciência de si, a reforma do eu e natureza das ideias

Não é costumeiro termos ciência dos fundamentos e das implicações últimas do que acreditamos, Bastiat foi muito sábio ao falar que, no geral, só se conhece a primeira consequência das suas ações.  Há uma diferença entre o que dizemos e fazemos. Por que isso? Somos influenciados por mais ideias do que imaginamos. Vem daí um grande dever e uma oportunidade, ou seja, olhar para si e decodificar o seu DNA mental, para em seguida melhorá-lo. A autoconsciência lhe dirá se você não é apenas um emaranhado de vaidade, orgulho, medo e preconceitos (como em geral são muitas ideias ou visões políticas). Dia após dia você se livra do entulho mental e edifica uma nova pessoa. Este é um grande empreendimento, quem não faz isso está condenado a vagar ao sabor daquilo que não conhece. As autodenominações como: liberal, conservador, centro e tantas outras não diz muita coisa, mas o que alguém faz na prática, principalmente aquilo que combate  o define.

Autoconsciência é um dever de todos. Afinal, vive bem o mundo povoado por ignorantes da própria condição? Se você perguntasse a qualquer homem medieval qual era o sentido da vida, ele lhe diria sem pestanejar: salvação. Sabia exatamente o que esperar desse mundo e do próximo, sabia que aquilo que não tem remédio, remediado está. Era bem mais pobre que nós, mas não vivia cercado de aflições triviais. Pergunte hoje a qualquer pessoa na rua qual é o sentido ou propósito de sua vida. Você ouvirá as respostas mais vazias possíveis, que se analisadas revelarão uma mentalidade avessa a responsabilidades e nada objetiva. Um sinal de fuga da condição humana. É essa mentalidade que dá espaço para as utopias.

Ora, quanto mais uma ideia obedece a natureza das coisas, mais logra êxito. Com efeito, a receita do fracasso é ignorar a estrutura da realidade. Percebo que mesmo as visões mais acertadas ignoram um traço fundamental de natureza, especificamente da nossa: o elemento transcendental, que recebe um tratamento quase velado, secundário. O mundo está para além dos sentidos, somos criaturas transcendentais, produtos de uma inteligência benévola (Deus, o próprio BEM). Não é de se estranhar que as ideias que mais nos trouxeram infortúnios são as que ignoram ou dão papel secundário a este traço. O comunismo, as revoluções, os totalitarismos são todos materialistas e se propõem a entregar na mão de poucos a condução rumo a um paraíso terrestre, que bem sabemos que nunca chega.

A blindagem em relação a isso não está a cargo de uma tropa de intelectuais (ainda que estes possam ajudar), mas numa constituição mental que só a religião traz e pode difundir por toda a sociedade. Pois não há sociedade que não tenha se constituído e florescido sob os auspícios de uma religião. Leia o ensaio de T.S. Eliot, Notas Para a Definição de Cultura.

Um olhar sobre a história pode deixar esta questão mais clara. Os últimos 300 anos foram de uma prosperidade material sem precedentes na história, os dados não nos deixam enganar. No entanto, nesse mesmo período, em especial no Século XX, realizamos uma matança também sem igual, totalitarismos e outras tantas tolices fatais. E o que isso quer dizer? Que a inteligência e moral não andam juntas. Caso fosse, o vilão não existiria. E quem é a grande salvaguarda da ética? Aquela que Walter Block diz ser  o que os comunistas odeiam mais que o capitalismo: a religião.

A Liberdade, o mundo, as opiniões, os estudos e a nossa realidade

A melhor maneira de empobrecer uma palavra é dar a ela o máximo de significados. A Liberdade ganhou uma definição por cabeça. Não é bem assim. A liberdade tem um fundamento que é a verdade. Esta se descobre a duras penas, mas não é o que vejo nos fóruns por aí. Vejo pessoas cheias de certeza, mas que não fizeram sequer três ou quatro perguntas sobre o tema em questão, conhecem poucos autores e de forma indireta, pois não se deram ao trabalho de estudá-los. E veja, estudar não é só ler. Estudar é entender qual questão o autor queria solver, o que o motivava, com quem ele debatia, o que ele pensava de si e sua obra, principalmente, nos últimos anos. E isso leva tempo. Quem não faz o dever de casa e sai dando com a língua nos dentes é um papagaio de pirata ou idiota útil. Quem não sente a responsabilidade que é opinar, não é digno de emitir alguma. Sem os pés no chão a imaginação termina em ilusões, as idealizações que deveriam apenas ser parâmetros, viram planos.

A vida intelectual é um serviço à verdade. E sair falando verdades tem um preço altíssimo, por isso, sua única recompensa é saber que você é fiel a ela. Isso implica em seguir contra a maré das opiniões, a dizer não, a refrear as paixões humanas. Ao intelectual só interessa a Justiça, a Verdade e a Razão. Não bastasse seguir por esse caminho difícil não há tempo para tudo.  Por isso é necessário se perguntar: o que meu tempo precisa? É daí que se empreende um programa de estudos. E este não precisa ser original a todo custo.  Como bem disse Olavo de Carvalho: “Não quero ter as minhas próprias ideias, mas as corretas“.

Precisamos seguir no sentido universal-particular, pois já introduzimos muitos autores estrangeiros (que devemos continuar trazendo), mas é preciso conectar nosso público a uma riquíssima tradição de magníficos pensadores brasileiros que já ser debruçaram sobre nossos problemas. Não podemos abandonar esse capital intelectual. E mais, existem pensadores sérios nas várias vertentes. O adversário é seu melhor amigo, é ele quem não lhe deixa ficar na zona de conforto, é ele quem olha para onde você não está olhando. E em muitos casos, faz descrições mais apuradas que as suas.

A União, a ação política e a carência representativa

Prioridades definem afinidades (Idem Velle Idem Nole) são nestas que se forjam as uniões, vide o conservadorismo e right-lib, progressismo e left-lib. Liberais e conservadores concordam em muita coisa, contudo, aquilo que é inegociável para um, não é para o outro. Quem tem o ímpeto de arregimentar precisa saber disso. Seguido disso, há o desafio com o público. E é a opinião pública que cria o espectro do possível. Para algo acontecer na política, é necessário que aconteça na cultura com muita antecedência (preparar terreno).

Talvez a pouca idade deste movimento crie a carência representativa, ou seja, é muito comum surgir alguma figura estridente e rasa, que em instantes ganha muita popularidade e já é alçada ao posto de representante. Cuidado, toda referência qualitativa é baseada na excelência, ou seja, você julga um movimento pelos seus melhores representantes.

Conclusões

O movimento é heterogêneo, engloba desde os que querem uma vida de estudos até aqueles que veem as ideias como uma grife, soma-se a isso uma média etária por volta dos 20-25 anos, ou seja, muita empolgação e certeza das coisas. É nessa hora que deve entrar em cena o papel fundamental dos veteranos, educar é parte do seu trabalho, talvez a mais importante, e esta começa pela imitação. Tenho certeza que cada um de nós inspira alguém. É o tal do modelo, nós fazemos, eles copiam. Com efeito, precisamos avaliar o que nos tornamos, nosso comportamento e o impacto no entorno. O afeto e autoridade devem ser exercidos. Quem está começando precisa saber o que tem pela frente, que conduta é adequada, ser corrigido nos seus defeitos e estimulado nas suas qualidades. É uma troca de confiança por experiência. Vejo que muitos se furtam a impor disciplina sob pena de serem considerados chatos e autoritários. E qual é o resultado disso? Os calouros acham que suas infundadas opiniões têm o status da sua. E fazem a festa da esquerda ao abraçar o seu programa cultural como aborto, relativismo, gayzimo e secularismo. Não é de se estranhar que diante o estado de coisas a prioridade das prioridades sejam as privatizações, e a meta de vida o fim do estado.

Quem conhece a história das ideias, sabe que a direita levou muitos dribles e só aprende quando é tarde. Isso não precisa se repetir. Há tempo para as correções de curso, só não sabemos quanto. Então, comecem já a se repensar.

Lourival Souza é presidente do Expresso Liberdade , Diretor Cultural do Instituto Liberal do Nordeste (ILIN) e membro do departamento acadêmico da Associação Cultural São Thomas More.

Comments

comments

Foto de perfil de Lourival Souza

Lourival Souza

Lourival Souza é Presidente do Expresso Liberdade e colaborador da Associação Cultural São Thomas More.

Um comentário em “Reflexões para o movimento liberal e conservador

  • 10/06/2016 em 11:14 am
    Permalink

    Meu caro Lourival, parabéns pela sua oportuna reflexão. Você descreve com precisão alguns dos problemas que se notam neste ressurgir conservador da sociedade. Aqui o conservador vai sem alusão a escolas de pensamento político, mas a este sentimento de retorno aos valores. Para ser sincero, em todo este resgate do passado há algo de fundamental também: a redescoberta do pensamento católico em seus grandes vultos. Não apenas na Teologia ou Filosofia, mas na História, na Arte, no Direito, na própria Economia. Uma vez mais, parabéns!

    Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *