Observatório cultural

Por Ricardo Santos de Carvalho

– Não é exagero dizer que o lançamento da Nabuco, revista de ensaios dirigida por Ronald Robson e Pedro Sette-Câmara, é o principal lançamento dos últimos anos no mundo brasileiro de estudos de Humanidades. Se o leitor duvida, leia o editorial disponibilizado no blog da revista, e conheça um trabalho que, segundo seu idealizador, surge,(…) não com uma proposta de vitalização do debate cultural no Brasil, mas com aquela que me parece a única proposta séria e viável de vitalização existencial do brasileiro: chamá-lo a reencontrar-se com sua situação concreta de meio europeu já que ocidental, mas sobretudo meio latino-americano; a abandonar modismos caducos de além-mar, por mais novidadeiros que pareçam, sem medo de apostar em sua tradição e suas possibilidades — já que só assim poderá falar com autoridade, como verdadeiro autor”.

– Outro empreendimento que vem juntar foças para romper o atraso editorial brasileiro é a Concreta, do Renan Martins dos Santos. Renan é conhecido por projetos como a Confraria de Artes Liberais e a Terminal, este um periódico eletrônico com ensaios de autores clássicos na área de literatura, filosofia e teologia, em que todos os textos são traduzidas por Renan e pelos leitores. A editora levará às livrarias obras dessas áreas. Prosseguindo no mesmo espírito coletivo, conclama os leitores a participar da edição por meios como o financiamento crowdfunding. Já está divulgando a Coleção Salamanca, dedicada à Escolástica Ibérica. Com direção do prof. Marcus Boeira, responde ao apelo que Mario Ferreira dos Santos fez há mais de meio século, de se pôr em circulação e em debate a rica especulação política e metafísica que se fazia em Portugal e Espanha nos séculos XVI e XVII.

– O poeta e filósofo Ângelo Monteiro retorna com o volume de poemas e “sermões” Como virar as páginas da Solidão, pela editora Confraria do Vento. É um livro que vem “para ressaltar o papel fundamental da poesia, que é a salvação do poder de destruição do tempo” pois, como diz em outro depoimento,“a arte é um modo de salvar a cultura e a memória humana através da linguagem. Acredito que a poesia é a forma mais completa de fazer isso. Ela não resolve a nossa incapacidade de se comunicar, mas não deixa de apontar pequenas soluções.” O Expresso Liberdade também recomenda, de sua autoria, os volumes O Ignorado, da Resistência Cultural Editora, e Arte ou Desastre, da É Realizações.

– Para os classicistas, católicos tradicionais e autodidatas interessados nas artes liberais, o fórum Mundus Latine procura reunir e produzir o melhor material possível em português para o estudo da língua de Virgílio e de Santo Tomás de Aquino.

– E saindo um pouco do underground para ver o que se passa nos grandes jornais, saudemos João Pereira Coutinho pela sua mais recente crônica, Nós os Vermes. Indo em contra-mão do stablishment ressentido, Coutinho ousa afirmar que a questão da cultura é uma questão de sobrevivência. Diante das crises que os islâmicos vem gerando no ocidente, a primeira pergunta a ser feita, e que não se faz, é: se nós não respeitamos nossas raízes, por que os outros respeitarão? 

Ricardo Santos de Carvalho é ensaísta. Escreve sobre literatura e demais artes no blog O Degredado.

*Imagem destacada: inscrição de poema de Virgílio em sua própria tumba, em Nápoles, Itália.

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