O poeta Ives Gandra da Silva Martins

Por Fernando Braga

Poesia completa, de Ives Gandra da Silva Martins, com a apresentação de João Carlos Martins e prefácio de Paulo Bomfim, é uma edição belíssima da editora Resistência Cultural – www.resistenciacultural.com.br –, de São Luís, “fruto do trabalho do editor e amigo José Lorêdo Filho, lutador na nossa terra”, segundo palavras do meu querido amigo, Dyêgo Martins, Professor de Literatura Maranhense de pós-graduação em História do Maranhão do IESMA, o qual, com sua costumeira gentileza, mandou-me esse exemplar de presente, uma riqueza de livro…

Quem assina a apresentação da Poesia completa, de Ives Gandra, é João Carlos Martins, o grande maestro brasileiro e pianista de renome internacional, reconhecido como um dos maiores pianistas do mundo e apontado como o maior intérprete de Bach. Em 1995, num assalto, na cidade de Sofia, Bulgária, foi golpeado na cabeça com uma barra de ferro, provocando uma sequela neurológica que comprometeu o membro superior direito; teve de fazer trabalhos de reprogramação cerebral para conseguir movimentar a mão direita, voltando a tocar com as duas mãos. Entretanto, voltou a apresentar problemas no braço direito, e agora também na fala; teve de ser submetido a um novo procedimento cirúrgico.

Entretanto, com o correr dos anos desenvolveu, no membro superior saudável, o esquerdo, uma doença chamada Contratura de Dupuytren, que provoca, além da própria contratura, o espessamento da “fáscia palmar”. Fora submetido de novo a um procedimento cirúrgico, que não impediu que perdesse os movimentos da mão esquerda, inviabilizando-o para tocar piano. Novamente teve de parar de tocar, e dessa vez acreditou seria para sempre.
Incapaz de segurar a batuta ou virar as páginas das partituras dos concertos, João Carlos faz um trabalho minucioso para memorizar nota por nota. Mas começou a desenvolver distonia no membro superior esquerdo, que produz movimentos involuntários, e o impede de reger.

Esteve em Londres regendo a English Chamber Orchestra, uma das maiores orquestras de câmara do mundo, numa gravação dos seis Concertos Branndenburguenses de Johann Sebastian Bach. Em dezembro, realizou a gravação das Quatro Suítes Orquestrais de Bach com a Bachiana Chamber Orchestra. Os dois primeiros CDs já foram lançados (lançamento internacional). Em fevereiro de 2004, o crítico inglês descreve na, International Piano Magazine, um episódio pitoresco da vida de João Carlos Martins: após um recital no Carnegie Hall, no final dos anos 60, recebeu uma recomendação de Salvador Dalí: “Diga a todos que você é o maior intérprete de Bach, algum dia vão acreditar. Faz muitos anos que digo ser o maior pintor do mundo e já há gente que acredita.” O crítico termina dizendo que João Carlos Martins não teve que esperar tanto tempo.

Em 2012 ele se submeteu a uma cirurgia no cérebro para a implantação de dois eletrodos, com um estimulador eletrônico no peito, para recuperar os movimentos da mão esquerda, atrofiada.

Com a ajuda de pesquisas à parte, tive de relatar essas considerações para mostrar a força de vontade do maestro e o seu poder de superação. Ele abre o livro com essa fraternal e carinhosa sentença:

Não é fácil escrever sobre o Ives, no entanto o orgulho que sinto em dizer não só em público, mas para pessoas que talvez não saibam que sou seu irmão, é indescritível. Muitas pessoas recebem por obra do destino um dom de Deus, mas algumas recebem vários dons e, sem dúvida, o Ives faz parte desse grupo.

O prefácio é do poeta Paulo Bomfim, da Academia Paulista de Letras, o Príncipe dos Poetas Brasileiros. Os cinco anteriores foram Olavo Bilac, Olegário Mariano, Martins Fontes, Menotti Del Picchia e Guilherme de Almeida. Leiamos o que diz Bomfim de Ives Gandra:

Acompanho há muitas décadas a trajetória lírica de Ives Gandra da Silva Martins. Nosso primeiro encontro foi abençoado pelas arcadas do Largo de São Francisco. Nascia aí um ritual de fraternidade que uniria nossas vidas. (…) Trata-se de um grande sonetista contemporâneo. Maneja o soneto shakespeariano com a mesma verdade de Campos de Figueiredo. (…) A obra completa de meu irmão em poesia acontece em boa hora, momento de perplexidade e desalento em que o Brasil clama por um pouco de Amor.

Nesta edição comemorativa Ives reúne os seus doze livros de poesias, em 750 páginas, numa caprichosa edição em capa dura. A estreia foi com Pelos caminhos do silêncio, de 1956. O último livro de versos é Cicatrizes do tempo, publicado pela primeira vez nesta Poesia completa. É ele, Ives Gandra, quem diz, em sua “Brevíssima introdução”, que “os leitores que tiverem paciência de ler alguns dos versos deste livro perceberão o porquê de considerar-me ainda um velho poeta da Geração de 45.”

O soneto que abre Pelos caminhos do silêncio – livro dedicado aos pais – é o “Soneto de abertura”, cujos versos foram escolhidos por Manuel Bandeira para figurarem como pórtico da estreia do jovem poeta paulistano, amigo do já consagrado Guilherme de Almeida. Ouçamo-lo:

Soneto de abertura

Eu faço versos, eu não sei por quê.
Meu verso inculto é veio d’água suja,
em vez de rio cristalino, cuja
nascente o gênio, apenas, é quem vê.

Se eu faço versos, são para você?
Talvez o canto de seus olhos ruja,
querendo o mar, num veio d’água suja,
e eu faço versos, eu nem sei por quê.

Quem há, porém, que ao corriqueiro fuja
e, por um verso, a vida inteira dê?
Um verso rude, um verso tal, quem lê?

Que uma boiada, nestas poças, muja!
Meu verso inculto é veio d’água suja
e eu faço versos, eu nem sei por quê.

Em “Testamento”, o poema último do livro último, Ives assim canta: Na voz do verso que resta, / na velhice já sem festa, / meu grito soa distante / sem ser triste ou ser tristonho – / continuo o mesmo sonho / que vivi desd’eu infante. / (…) Meu verso pobre e diário, / escrito em meu calendário, / fez do combate certeza, / qual astronauta no espaço – / tracei sempre cada passo, / sem medo da correnteza. / (…) Companheira de virtude / desde minha juventude, / nestes anos sem tormento, / a ti Ruth, tão querida – / hoje perto da partida, / entrego meu testamento.”
Ruth é a esposa de Ives. Para o poeta, é como se fora Beatriz para Dante ou Laura para Petrarca.

Este é professor Ives Gandra da Silva Martins, o maior tributarista brasileiro, um dos grandes publicistas e pensadores do nosso tempo. Jurisconsulto, pianista, orador e lutador de caratê, jornalista, poeta e presidente da Academia Paulista de Letras. Se eu já era seu aprendiz no campo jurídico, mais o serei agora, porque temos, os dois, a poesia como rumo constante e inelutável.

Fernando Braga é poeta e ensaísta.

Artigo originalmente publicado no jornal O Estado do Maranhão, caderno Alternativo, 24/05/2015.

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