O papel das tendências na luta contra-revolucionária

Por José Carlos Sepúlveda

Apresentação por ocasião do colóquio sobre estratégia contra-revolucionária – Palácio da Independência (Lisboa) em  19 de Dezembro de 2015

 A finalidade destes colóquios, bem como dos estudos que ao longo do ano são realizados e debatidos nos encontros das sextas-feiras, é considerar o fenómeno revolucionário em toda a sua amplitude religiosa, moral, filosófica, histórica, política, social, artística, etc.

Ao debruçarmo-nos sobre o acontecer revolucionário é imperioso também considerar a Contra-Revolução nas suas diversas manifestações de pensamento e nas suas organizações de acção e de luta, ao longo dos tempos.

Considero-me privilegiado por, desde jovem, ter conhecido e me tornado discípulo de Plinio Corrêa de Oliveira que não apenas foi um eminente pensador contra-revolucionário, mas um grande líder na luta contra a Revolução, nos nossos dias. Luta na qual me engagei e que me proporciona, assim, um olhar particular sobre os campos e as estratégias do embate Revolução e Contra-Revolução. Uma luta no presente.

*  *  *

Para bem entender o tema que me foi proposto – “Revolução e Contra-Revolução nas tendências – um campo particular de actuação” – gostaria de relembrar alguns pressupostos.

A Revolução, como ela é considerada por Plinio Corrêa de Oliveira, fazendo eco aos ensinamentos Pontifícios e aos pensadores ultramontanos, não se cinge a um processo que utiliza os mais diversos meios – cruentos ou incruentos – para derrubar autoridades legítimas, subverter ordenações sociais ou políticas, ou difundir doutrinas anti-cristãs. A Revolução tem, isto sim, uma meta global que é a destruição de toda uma ordem de coisas, que se consubstanciou na Cristandade; ou seja, a disposição dos homens e das coisas segundo a doutrina da Igreja, Mestra da Revelação e da Lei Natural. Mais ainda, “é uma visão do universo e um modo de ser do homem, que a Revolução pretende abolir, com o intuito de substituí-los por outros radicalmente contrários” (Revolução e Contra-Revolução, Parte I – Cap. VII, 1. C).

*  *  *

Um outro pressuposto, conexo a este primeiro, é que o motor do processo revolucionário não pode ser circunscrito a um sistema doutrinário, mas inclui um exacerbado desregramento das paixões humanas. Ora, por vezes, são estas que inspiram no coração do homem um erro que as justifique, ora, outras vezes, são os erros que desencadeiam o desregramento das paixões; mas este desregramento é o germe mais activo e profundo do processo revolucionário.

No homem, decaído pelo pecado original, existe uma debilidade da inteligência e uma tendência a revoltar-se contra a Lei e só com o auxílio da graça divina pode ele permanecer duravelmente no conhecimento e na prática de todos os Mandamentos. Por isso, o próprio da virtude cristã é a recta disposição das potências da alma; e no homem virtuoso – máxime, no Santo – a objectividade dos juízos e a firme orientação da vontade para o bem não são debilitadas pelas paixões desregradas.

*  *  *

As paixões humanas são moralmente indiferentes; é o seu desregramento que as torna más, pois elas – enquanto  submissas à recta vontade e à recta razão, alimentadas pela vida sobrenatural – são boas.

É, pois, no campo da psicologia humana, na criação de estados de espírito, que se dá uma primeira batalha. A Revolução tende a estimular o desregramento das tendências desordenadas que procuram realizar-se, em oposição à virtude e ao bem. Como o homem procura gerar ambientes e costumes que estejam de acordo com seu modo de ser – seja ele virtuoso ou não – é neste campo que se dão em boa medida as refregas, não explicitamente doutrinárias, mas essenciais ao embate da Revolução e da Contra-Revolução.

*  *  *

Creio que é importante e ilustrativo exemplificar as afirmações acima. E sirvo-me de dois escritos de Eça de Queiroz, que são reveladores de como considerava a importância desta mesma acção tendencial para o avanço revolucionário.

Quando era cônsul em Newcastle, dirige ele uma carta a Rodrigues de Freitas na qual aborda seu romance “O Primo Basílio”: «Os meus romances importam pouco; está claro que são medíocres; o que importa é o triunfo do Realismo – que ainda hoje méconnu e caluniado, é todavia a grande evolução literária do século, e destinado a ter na sociedade e nos costumes uma influência profunda. O que queremos nós com o Realismo? Fazer o quadro do mundo moderno, nas feições em que ele é mau, por persistir em se educar segundo o passado; queremos fazer a fotografia, ia quase a dizer a caricatura do velho mundo burguês, sentimental, devoto, católico, explorador, aristocrático, etc.; e apontando-o ao escárnio, à gargalhada, ao desprezo do mundo moderno e democrático – preparar a sua ruína. Uma arte que tem este fim não é uma arte à Feuillet ou à Sandeau. É um auxiliar poderoso da ciência revolucionária (Cartas de Eça de Queiroz, Ed. Aviz, 1945, pag. 49)”.

A meta, pois, está clara: apontar ao escárnio, à gargalhada e ao desprezo o velho mundo católico e aristocrático e insuflar as tendências democráticas revolucionárias, sem uma exposição de doutrinas, mas com uma acção tendencial, através de romances que induziam estados de espírito. E isto é considerado por Eça como um poderoso auxiliar da ciência revolucionária.

Modas, invenções, costumes, hábitos, arte, culinária, tudo é passível de uma utilização na luta Revolução e Contra-Revolução.

Consultem-se, por exemplo, os inúmeros artigos sobre a chamada nouvelle cuisine e ver-se-á, sem dificuldade, como ela é marcada por concepções revolucionárias e tenta, através da modificação dos hábitos alimentares, favorecer tendências desordenadas, que desembocarão mais tarde em ideias revolucionárias.

Haverá algo mais neutro do que a utilização da bicicleta como meio de transporte? Entretanto, hoje em dia, há uma  batalha ideológica envolvida na transformação do hábito de usar bicicletas nas grandes cidades. Em São Paulo, cidade onde vivo, chegou a haver manifestações de ciclistas engajados contra o uso de automóveis e o uso da bicicleta apresentado como uma mudança civilizacional, de um mundo que pretende caminhar para o sub-consumismo, anti-capitalista.

É até interessante consultar artigos a respeito das transformações sociais produzidas na linha revolucionária, a partir de meados do século XIX, quando a bicicleta se populariza como meio de transporte.

*  *  *

Mas volto a Eça de Queiroz, agora para dar um exemplo vivo desta acção profunda nas tendências através da moda.

Nas “Cartas inéditas de Fradique Mendes”, encontra-se a missiva dirigida ao alfaiate Sturmm, da qual extraio alguns trechos.

Fradique começa por criticar a “insensatez” da sobrecasaca que lhe encomendara pela sua falta de individualidade e censura severamente o alfaiate por não saber usar sua tesoura com a mesma sagacidade psicológica com que Kant usava a pena.

“Não ignora V., decerto, que ao lado da filosofia da história e de outras filosofias, há ainda mais uma, importante e vasta, que se chama a filosofia do vestuário; e menos ignora, decerto, que aí se aprende, entre tanta coisa profunda, esta, de superior profundidade: que o casaco está para o homem como a palavra está para a idéia” (…).

“Temos pois que a palavra opera sobre a idéia, ou disfarçando-a ou acentuando-a. Vai–me você seguindo, perspicaz Sturmm? Tudo isso se aplica exatamente às conexões do casaco  com o homem” (…).

“Disfarçando-o ou acentuando-o, o casaco deve ser a expressão visível do carácter ou do tipo que cada um pretende representar entre os seus concidadãos”.

Note-se bem um ponto importante. Eça não diz no seu escrito que o casaco representa necessariamente uma determinada concepção de vida. Ele pretende representar. Ou seja, é a constatação de que coisas de si neutras podem ser usadas para transmitir uma concepção ou favorecer uma tendência.

Recordo-me que durante a Revolução estudantil de Maio de 68, em França, um jornal afirmou que a transformação do mundo anunciada e desejada pelos jovens que enchiam as ruas de Paris equivalia a algo tão profundo como se os homens passassem a cumprimentar-se com a mão esquerda. O que teria de moralmente censurável que os homens dessem a mão esquerda para se cumprimentar? Aparentemente nada. Mas seria a manifestação do anseio de uma desordem profunda em contraposição à ordem constituída.

Retorno ao texto de Eça de Queiroz e da carta de Fradique Mendes ao alfaiate Sturmm:

“Quem lhe encomenda pois um casaco, digno Sturmm, encomenda-lhe na realidade um prospecto” (…).

“E, no entanto, que me manda você, Sturmm, num embrulho de papel pardo? Você manda-me a sobrecasaca que talha bem para toda a gente em Portugal, desgraçadamente: a sobrecasaca do conselheiro! Digo «desgraçadamente» porque vestindo-nos todos pelo mesmo molde, você leva-nos todos a ter o mesmo sentir e a ter o mesmo pensar”.

Aqui está o princípio importante que Eça deseja apresentar,: a roupa pode ser o prospecto do indivíduo e, mais ainda, é uma espécie de libré que externa o que o sujeito pensa mas ao mesmo tempo modela o que ele deve pensar. Sem fazer uma demonstração rigorosa, mas caminhando de blague em blague ele formula o sentido profundo da filosofia que quer dar:

“Você, pondo no dorso de toda a sociedade essa casaca de conselheiro – lisa, insípida, rotineira, pesabunda -, está simplesmente criando um país de conselheiros! Dentro desta contenção banalizadora e achatante o poeta perde a fantasia, o dandi perde a vivacidade, o militar perde a coragem, o jornalista perde a veia, o crítico perde a sagacidade, o padre perde a fé. Perdendo cada um o relevo e a saliência própria, fica tudo reduzido a esse cepo moral que se chama o conselheiro! A sua tesoura está assim mesquinhamente aparando a originalidade do país!”

Parece-me brilhante e perspicaz a afirmação: o traje standard apara a originalidade do país. Eça consegue evidenciar aqui o prodigioso processo de despersonalização que existe na supressão dos alfaiates e a popularização dos fabricantes de roupas prêt-a-porter, a que viemos assistir em pleno século XX. É exactamente o homem em série que foi precedido pela roupa em série.

E assim ele conclui: “Você corta, em cada casaca, a mortalha de um temperamento”.

*  *  *

Espero ter conseguido fazer perceber a importância e a realidade do problema tendencial na luta Revolução e Contra-Revolução. Como num uso, num costume, num traje, num ambiente, etc. se pode reflectir todo um firmamento de convicções artísticas, filosóficas ou até teológicas.

Não eram os revolucionários franceses,  que se jogavam sem dó nem piedade contra o Altar e o Trono, definidos pelo seu modo de vestir, os “sans-coulottes”? Ou seja, no seu modo de apresentar-se, estava implícita e expressa toda uma revolta do coração humano contra a ordem cristã e a Lei Divina.

Plinio Corrêa de Oliveira sempre chamou especialmente a atenção para a acção tendencial da Revolução e seu nexo profundo com as idéias revolucionárias, “nexo que se tivesse sido levado em conta pelos diversos movimentos contra-revolucionários, lhes teria aumentado a autenticidade, e a eficácia, dando outríssimo aspecto ao embate “R-CR”.

É por tal motivo que Plinio Corrêa de Oliveira reveste a acção contra-revolucionária de símbolos, como a célebre capa rubra e os estandartes vermelhos com o leão rompante, que se tornaram uma marca indissociável e característica das diversas TFPs e associações co-irmãs. Não é apenas a difusão de ideias o que importa, mas uma actuação perpassada de simbolismo.

Além disso, cria ele no mensário de cultura católica Catolicismo uma secção intitulada “Ambientes, Costumes e Civilizações”, onde tenta ajudar o leitor a explicitar a influência de gestos, modos de ser, objectos de arte, trajes, construções, etc. sobre as tendências do homem. Uma explicitação sempre baseada num contraste entre ilustrações ou fotografias de algo revolucionário, de um lado, com ilustrações ou fotografias de algo da Civilização Cristã ou da Igreja.

Creio que nos movimentos e indivíduos que transitam no campo contra-revolucionário falta muitas vezes a percepção da luta fundamental no campo das tendências.

É este o contributo que, de um modo sintético, procurei dar ao debate do tema geral deste colóquio “As estratégias da Contra-Revolução”.

José Carlos Sepúlveda é assessor pessoal de Sua Alteza, Dom Bertrand de Orleans e Bragança, analista político, editor do blog Radar da Mídia e membro do Instituto Plínio Corrêa de Oliveira.

Comments

comments

Lourival Souza

Lourival Souza é Presidente do Expresso Liberdade e colaborador da Associação Cultural São Thomas More.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *