O maracajá, a galinha e a intervenção Militar

O gato-maracajá é uma espécie de felino das matas brasileiras. Como outros bichos, de vez em quando, alguém pega um para criar em casa (não façam isso). Mas tem que ser filhote, porque ele é bastante feroz quando adulto.

Pois bem, algum amigo das redes sociais me disse que em sua residência familiar, muitas décadas atrás, havia um maracajá, “meio” domesticado. Isso porque, quando estava no quintal, se olhasse uma galinha fora do terreiro, seu instinto era de pular sobre a ave e matá-la, como faria se estivesse na natureza. Só que, como o gato fora criado desde filhote à pão de ló, não sabia o que fazer com a galinha. Simplesmente não a comia. Ficava sobre ela morta, e caso alguém tentasse tirá-la, ele rosnava, mostrando suas unhas e seus dentes afiados. Apenas quando cansava, ia embora, e poderiam recolher a penosa (que virava um cozido, lógico).

O Exército brasileiro é o maracajá, e a galinha, a República. De fato, por várias vezes, a caserna sentiu o instinto, foi lá e matou a barulhenta. Direto, certeiro, sem reação. Para tomar o poder, as Armas são boas. Ninguém duvida. Puseram fim a uma monarquia constitucional num único dia; elevaram e retiraram presidentes, às vezes só pela ameaça. O problema é o depois: o que fazer com a comida?

A contradição militar na política é exatamente esta. Se por um lado quer matar, por outro não sabe comer. Os militares foram doutrinados à amar a República, mas esta entidade não é para a sua apreciação. Se é República, tem que haver eleições civis, os mesmos civis que o quartel quer limpar do controle do Estado. Assim foi no último golpe: derrubaram a esquerda revolucionária, e vinte anos depois, já cansados – mesmo com fome – estavam prestando continências à sua chefia… a esquerda revolucionária. Enfim, liberaram a galinha, para a felicidade dos donos da casa.

A intervenção militar não parece ser muito inteligente, e não é mesmo. Não com o tipo de militar que temos, meio selvagem, meio doméstico. O gato-maracajá do quintal vai matar, vai rosnar, vai cansar. Depois vai embora, de barriga vazia, para virar piada, quando todos estiverem chupando os ossinhos da galinha guisada.

Diogo Guagliardo Neves é pesquisador e historiador formado pela Universidade Federal do Maranhão, mestre e doutor em Ciências Socais pela mesma universidade, advogado e professor do curso de direito das disciplinas de direito constitucional e administrativo.

 

 

Lourival Souza é presidente do Instituto Expresso Liberdade, colaborador da Associação Cultural São Thomas More, graduado em gestão financeira, tem experiência no mercado de investimentos e educação, é mestrando em Economia Política pelo Swiss Management Center e ex-presidente da Federação Maranhense de Empresas Juniores.

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Lourival Souza

Lourival Souza é presidente do Instituto Expresso Liberdade, colaborador da Associação Cultural São Thomas More, graduado em gestão financeira, tem experiência no mercado de investimentos e educação, é mestrando em Economia Política pelo Swiss Management Center e ex-presidente da Federação Maranhense de Empresas Juniores.

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