Lula: a grandeza Intramundana de um soba provinciano

Por Dyêgo Martins*

Considerado um dos maiores filósofos do século XX, o alemão Eric Voegelin se notabilizou pela crítica contundente ao pensamento de Karl Marx, a quem creditou a concepção de uma ideologia perniciosa que estimulou a violência e a morte de milhares de seres humanos.  Para o estudo introdutório de sua obra, é recomendável a leitura preliminar das “Reflexões Autobiográficas”[1]. Contudo, é em “Hitler e os Alemães”[2] que o filósofo (que também foi cientista político) efetua uma brilhante análise da personalidade doentia do líder germânico e do impacto de sua ideologia totalizante sobre toda uma nação.

As considerações de Eric Voegelin sobre o Nazismo – na tentativa de interpretar um fenômeno de massa do ponto de vista antropológico, conforme os preceitos da Filosofia Política – fazem cair por terra o argumento da “culpa coletiva”, tão presente no pensamento de Karl Jarspers e Hannah Arendt. Ao mesmo tempo, o filósofo nos faz refletir sobre o atual estado de coisas no Brasil.

Após vinte anos de exílio na América, onde lecionou em Stanford e na Louisiana, em 1958, Voegelin retornou aos países germânicos para fundar o Instituto de Ciências Políticas da Universidade Ludwig Maximilian de Munique. No semestre de verão de 1964, proferiu as conferências intituladas “Hitler e os Alemães”, nas quais discutia “o problema central da experiência alemã” de seu tempo: a ascensão de Adolf Hitler ao poder, suas motivações as consequências para a Alemanha pós-nazista. Para Voegelin, tais questões exigiam um escrutínio da mentalidade dos alemães, de modo individual, bem como do estado espiritual da sociedade alemã, durante e após o período nazista.

No prefácio à edição brasileira, Mendo de Castro Henriques relembra que Voegelin contribuiu para romper tanto com as visões que demonizam Hitler quanto com aquelas que diminuem sua responsabilidade individual, pois “a personalidade moral do indivíduo não é determinada pelas estruturas sociais em que se insere, mas a mediocridade do caráter pessoal facilita a corrupção das estruturas sociais”. O filósofo recusa o determinismo histórico e o fatalismo para argumentar que a ascensão do Führer não foi determinada somente pelas condições sociais, históricas, econômicas e políticas da Alemanha da década de 1930, mas também devido à carência de indivíduos responsáveis com o sentido da busca da verdade.

Para Voegelin, Hitler foi beneficiado pela “combinação de uma personalidade forte e de uma inteligência enérgica com uma deficiência de estatura moral e espiritual; de consciência messiânica com o nível cultural de um cidadão da era de Haeckel; de mediocridade intelectual unida à autoestima de um soba provinciano; e do fascínio que uma tal personalidade poderia exercer num momento crítico sobre pessoas de espírito provinciano e com mentalidade de súditos”.

Essas palavras costumam trazer à memória, guardadas as devidas diferenças, a figura de Luiz Inácio da Silva. Explico: nesta semana, o ex-presidente brasileiro discursou durante a inauguração de uma fábrica de cervejas do Grupo Petrópolis, em Itapissuma, cidade com pouco mais de 25 mil habitantes, na Região Metropolitana do Recife.

A presença de Lula no evento não é mera coincidência ou piada pronta. Itapissuma (onde Dilma Rousseff obteve cerca de 80% dos votos no segundo turno) é conhecida como a “Terra da Caldeirada”, uma alusão ao delicioso prato típico local.  Aos poucos, contudo, o município adquire o título de “Cidade da Cerveja”. Antes do Petrópolis, em março de 2014, a Ambev já havia inaugurado no município sua maior unidade no Norte e Nordeste, com investimentos em torno de R$ 725 milhões. À época, o evento foi prestigiado pelo então governador pernambucano Eduardo Campos, que perderia a vida em um trágico acidente aéreo meses depois.

No discurso, entre um gracejo e outro, Lula, em tom desafiador, esbravejou que “quem acredita que o Brasil não vai dar certo irá quebrar a cara”, ao criticar as análises pouco otimistas do cenário econômico atual. Munido com seu habitual desdém acadêmico, atirou nos economistas para acertar na oposição. Foi irônico: “Não fiz universidade, mas se tivesse tido a oportunidade, faria economia. Se tem um bicho sabido é o economista, principalmente quando está na oposição.”

O tom hostil das declarações do “Chefe” tem se acentuado nos últimos meses. Recentemente, Lula declarou que os manifestantes que foram às ruas em 15 de março e 12 de abril ainda terão que “ajoelhar aos pés de Dilma para agradecê-la”. Não pense, caro leitor, que a cólera desmedida chegou a incomodar minimamente algum dos convidados ao evento. Ao contrário: a profecia de entronização de Dilma foi recebida com os mais veementes aplausos das autoridades e gritos de apoio da população local.

Voltando a Eric Voegelin: Hitler era, nas palavras do filósofo, o alemão representativo dos anos 1930, “o homem da rua, o ‘Zé Ninguém’… mas capaz de intoxicar um povo com a sua grandeza intramundana”. Nosso Dr. Luiz Inácio (Lula possui 27 doutoramentos honoris causa) representa exatamente o mesmo: um homem medíocre, de mentalidade rasa, porém, dotado de senso de oportunidade e retórica messiânica, e cuja ascensão ao poder demonstra o declínio espiritual e a decadência moral e cultural, não do país, mas de grande parte de seus indivíduos; declínio esse impulsionado pela ação da intelligentsia, historicamente responsável pela construção de arquétipos e ideologias vigentes.

A despeito do projeto de poder do PT, que se integra no esforço de consolidação da hegemonia da esquerda no continente latino-americano, através do Foro de São Paulo, e iniciativas como a UNSASUL [3] e o CDS [4] , o rebaixamento moral e cultural do país na década petista não pode eximir Lula e seus asseclas da responsabilidade individual que cada um teve na marcha para o fundo do poço. Leiam o discurso do já presidente da República no XII Encontro do Foro de São Paulo, em julho de 2005, e percebam como toda a fanfarronice de Lula, suas habituais quebras de protocolo, trejeitos e metáforas futebolísticas, representam bem mais que um estilo com apelo popularesco: trata-se um artifício retórico muito bem arquitetado para consolidar (tal qual Hitler) a imagem do “sedutor inexplicável ou genial”, capaz de provocar a admiração ingênua do público anestesiado, perfeitamente contaminado pela “mentalidade de súditos”, da qual Eric Voegelin fala.

 Tal condição nos remete ao pensamento de outro filósofo, o ítalo-argentino José Ingenieros, também médico, psiquiatra e escritor. Na obra “El Hombre Mediocre” [5],  Ingenieros afirma que o homem medíocre é, “por essência, imitativo, e perfeitamente adaptado para viver em rebanho (…) mansos, pensam com a cabeça dos outros (…) ajustam o seu caráter às domesticidades convencionais”. Pelo visto, o espírito de rebanho voltou  a pairar na última segunda-feira, véspera do feriado de Tiradentes, na pequena Itapissuma, onde Lula brindou à mediocridade com largos goles de cerveja. Não faltou a cereja do bolo, representada por mais uma das pérolas do apedeuta, para o êxtase do público: “Minha assessoria vai ficar puta porque político não pode aparecer em evento público bebendo cerveja. Mas eu não tenho cargo público, eu não recebo dinheiro público, então eu posso fazer o que eu quiser.”

Qualis rex, talis grex. Lembremos que o homem medíocre geralmente também é leviano, irresponsável e, sobretudo, bestial.

 Dyêgo Martins é Licenciado em Filosofia e História. Especialista em História do Brasil e Mestre em Cultura e Sociedade. Membro da Associação Nacional de História – ANPUH, Associação Brasileira de Estudos de Defesa – ABED e da National Rifle Association of America – NRA. 

NOTAS:

[1] Trigésimo quarto volume das obras completas de Eric Voegelin (Collected Works), publicado no Brasil pela É Realizações Editora, na Coleção Filosofia Atual (2008).

[2] Reunidas em volume único na edição brasileira, com tradução de Elpídio Fonseca, introdução e edição de texto de Detlev Clemens e Brendan Purcell (Coleção Filosofia Atual, É Realizações, 2008).

[3] União de Nações Sul-Americanas.

[4] Conselho de Defesa Sul-Americano.

[5] Editorial Renacimiento, 1913.

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Lourival Souza

Lourival Souza é Presidente do Expresso Liberdade e colaborador da Associação Cultural São Thomas More.

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