Liberdade de pensamento

Por Juan Manuel de Prada

Em 1984, explicando os artifícios empregados pelo Partido para transformar o pensamento das pessoas, George Orwell relata que tinha destaque fazer crer que “tanto o passado como o mundo externo existem apenas na mente.” Ante o que Winston Smith, o protagonista do romance, rebela-se dizendo: “O mundo material existe, suas leis não mudam. As pedras são duras; a água, líquida; os objetos, sem distinção, caem em direção ao centro da Terra. Liberdade significa liberdade de dizer que dois mais dois são quatro. Se isso for aceito, todo o resto vem por acréscimo”. A liberdade, para Orwell, é baseada na verdade; e sabemos que nada ofende (especialmente em tempos de engano universal), tanto quanto a verdade. Por que todos os tiranos do mundo tentaram esgueirar-se da verdade das coisas; e o homem livre aspirou a desvendá-la. Nisto deveria consistir a liberdade de pensamento. Mas realmente esta é a “liberdade de pensamento” que hoje proclamamos?

Não, pela simples razão de que nossa época não reconhece a existência da verdade que Orwell considerava premissa da liberdade. O subjetivismo nega que a verdade das coisas pode ser conhecida, pois considera que a compreensão é limitada pela experiência. O relativismo afirma que as coisas são produto nossa perspectiva, e não seriam caso a perspectiva fosse outra. O ceticismo, em suma, exige-nos duvidar de tudo, acreditando que somos incapazes de alcançar a verdade. A verdade das coisas se evaporou completamente, atendendo ao desejo do Partido que exigia que tanto o passado como o mundo externo existissem apenas como figurações mentais. Curiosamente, isso não ocorre no âmbito de um poder ditatorial como imaginava Orwell, mas sob regimes democráticos. Mas talvez, como afirmava Kelsen em Da essência e valor da democracia, “A causa democrática ficaria desesperada se fosse baseada na ideia de que as verdades podem ser acessadas e os valores absolutos podem ser apreendidos”.

Ao não se reconhecer a existência da verdade (ou a impossibilidade de acessá-la), já não pode existir adequação do intelecto as coisas (definição aristotélica de verdade). Abolida a verdade, se evocou o princípio de objetividade, que pressupõe imparcialidade; porém ninguém pode crer, seriamente, que um sujeito que não reconhece a existência da verdade pode ser outra coisa senão subjetivo. Logo, o conceito de objetividade foi substituído pelos de sinceridade ou autenticidade, que somente podem presumir “dizer o que se pensa (ou sente)”. A verdade então converte-se em coerência com as próprias ideias, que naturalmente haverão de ser subjetivas; mas uma vez subtraída a adequação do intelecto as coisas, como saberemos que as ideias que acreditamos ser próprias não são na verdade induzidas por outros? Como sabemos que o estamos dizendo e pensando não é o que outros nos predispuseram ou ensinaram a pensar? Como sabemos que estamos pensando e não somente “sentindo”? Afinal de contas, não há nada tão “sincero”, tão “autêntico” como exprimir os sentimentos. E nada tão fácil de excitar, estimular e, definitivamente, de induzir. Não é preciso dizer a facilidade com que as imagens da TV indignam; ou a velocidade com que nos mobiliza nas redes sociais. Quando a verdade é suprimida, nada mais simples do que oferecer pensamentos que fazem nos sentir autênticos.

Assim acreditava Adam Smith quando afirmava que “nas sociedade opulentas, pensar é uma tarefa muito especial reservada a um número reduzido de pessoas que fornecem todo o pensamento que deve dispor a multidão dos que sofrem”. Assim também Rosseau quando explicava como se “criava” a cinicamente chamada “opinião pública”: “corrigidas as opiniões dos homens, seus costumes se depurarão por si mesmos”. Em Um Mundo Feliz, a fábula futurista de Huxley, esta “liberdade de pensamento” se criava durante o sono mediante um mecanismo repetitivo que falava sem interrupção ao subconsciente; em nossa época se logra através dos métodos de controle social e de condicionamento dos espíritos de todos os conhecidos, que nos ensinam que podemos pensar e o que devemos rechaçar, o convém dize e o que não, para seguir sendo aceito pela manada e acolhidos no rebanho onde nos aguarda o cocho dos pensamentos permitidos, para ruminar e deglutir tranquilamente para alívio de nossa pena.

Por Juan Manuel de Prada é um crítico literário e escritor espanhol.

Publicado originalmente em http://www.religionenlibertad.com/libertad-pensamiento-50238.htm

 

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Lourival Souza

Lourival Souza é Presidente do Expresso Liberdade e colaborador da Associação Cultural São Thomas More.

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