Filosofia Viva

Por Ivan Pessoa

I.

Em seu livro: ‘On heroes, hero-worship‘ (1841), o crítico inglês Thomas Carlyle, ponderou brevemente sobre a educação universitária de seu tempo, e seu contraponto imediato: a Universidade Medieval, com a clarividência de um profeta, ou seja, antevendo a crise intelectual que encontraríamos nos anos seguintes (vide: A Lição V do livro aludido). Com uma percepção quase premonitória, Carlyle depreendeu da universidade moderna o fator decisivo do distanciamento; da decantada Torre de Marfim, advindo daí a irreparável observação: ‘Na Idade Média, mais precisamente em Paris, se surgisse a curiosidade sobre o que Pedro Abelardo tinha a dizer; os ouvintes se juntavam, face-a-face, para escutá-lo.‘ Para qualquer leitor do diálogo Fedro de Platão, a queixa de Carlyle não parece inovadora, afinal aponta para a certeza de que, desde a invenção da imprensa – a transmissão das ideias cede paulatinamente à frieza da escrita, fomentando assim a mais evasiva das desculpas: ‘Se queres entender o que digo, leia os meus artigos.‘ Como se a vida já não denunciasse: dispensadas as aspas, a grandeza ou a pequenez de alguém (…). Last but not least, isso me faz recordar o caso de um famigerado professor que, ao ser pego com farto material de pedofilia, redarguiu: ‘Espere, deve haver algum engano: eu sou filósofo. ‘

Em linhas gerais, pela mesma via aberta por Carlyle, pondero: outrora, filósofo era um ser integral, dotado de excelência (haja vista o ‘spoudaios‘ de Aristóteles), empenhado em confrontar dialeticamente seus eventuais interlocutores, leia-se: vis-à-vis, com uma filosofia que não era parcial, mas total, e por sê-la: manifestava-se exemplarmente desde os pequenos gestos. Hoje, se é que existe filósofo em sentido estrito, afinal progressivamente as Universidades aliciam-no com estabilidade financeira e consequente ascensão social: escreve para jamais ser lido, dada a falta de criatividade e o apego corporativo às ideias inviabilizadas pelo mundo lá fora; o que impede tanto a crítica arrostada quanto uma relativa proximidade. Não que a escrita dificulte ou mesmo anule a possibilidade de diálogo ou refutação, afinal antigas ideias – via apropriação hermenêutica -, podem ser incorporadas à vida ou corrigidas, mas o esforço institucional de alguns, parece turvar – com notações e termos técnicos, (publicados em revistas especializadas) esse traço indispensável da formação intelectual: o diálogo; o confronto e o senso intuitivo da descoberta, que são a consequência de um espírito amadurecido por que apto ao contraditório. Ademais, as mudanças são acidentais, como o surgimento de uma tecnologia (a exemplo da própria imprensa), mas a essência do filosofar não anula, e sim incorpora as ponderações de eras anteriores a partir da prioridade do diálogo, cujo pressuposto é a relação entre um mestre e seu discipulado. Entre estas se atualiza a inteireza filosófica com: nobreza de espírito, prudência e maturidade, constatáveis em uma presença filosoficamente viva. Tal observação, além de crítica, é diuturnamente constatável, reforçando a tese de que, sem discordância e empenho dialógico: nenhuma filosofia se sustenta – nem mesmo essa.

II.

Na Escolástica, entre os séculos XII e XIII, o método pedagógico e jurídico par excellence, chamava-se: ‘concordia discordantium‘, ou ‘harmonia entre opiniões divergentes‘, algo que aprofundava o ponto mais capcioso de um argumento, de modo que pressupunha o diálogo e, por seu turno, a presença de dois interlocutores. Portanto, o lócus ideal para a efervescência filosófica era um espaço em comum, de onde a imediata discordância, e o enredamento de questões inesperadas, encaminhava o diálogo não para a vaidade dos títulos e pompas acadêmicas, como na atualidade – anexos no decurso de um artigo, p.e, mas para a Verdade. Dito de outro modo: o caminho mais plausível para se confirmar a viabilidade de uma ideia – alentada por recursos retóricos e, no mais das vezes, apenas verossímil -, é exigir provas e contraprovas imediatas, ou seja, confronta-la com a realidade, algo que requisita a presença de seus debatedores e a maturidade em perceber seus êxitos ou equívocos.

Para que o espírito filosófico surja, efetivamente, a exigência de um diálogo vivo se torna inevitável, algo que revela de per si a natureza de um pretenso filósofo. O que vem a seguir é uma ilustrada digressão acadêmica.

III.

Se alguém afirma publicamente que é possível mudar o mundo; e elenca todos os meios possíveis para tal expediente – ajustando a contingência da realidade ao bel-prazer do seu ‘argumento’ (o que seria deveras pretensioso) logo este alguém deve franquear seus ouvidos para as eventuais perguntas: ‘Mudar o mundo, mas como?‘ A distância entre: como mudar o mundo – encaminhado por um entusiasta; presente a uma plateia, e como fazê-lo a partir de um texto publicado em uma revista Quali com suas terminologias de ocasião, é crucial para uma verdadeira tomada de posição, de sorte que a própria presença de quem defende tal arroubo, já denuncia a clareza de suas pretensões. Faço minhas as palavras de Hoffmansthal: “No ‘como’, é que reside toda a diferença.” Presente em uma plateia: a mera imposição de como implementar a mudança; neste esforço de desacomodar a ordem do mundo real com violência, e a imediata impossibilidade de refutação que eventualmente surja entre os ouvintes (sustentada por toda sorte de passionalidade) já dão provas de que a ideia mesma é inviável. Afinal, como se pode refutar alguém que pretende mudar algo que é indiferentemente polissêmico, e que evoca tantos sentidos, vejamos: mundo natural, mundo interior, mundo possível, i-mundo? Como posso refutar alguém que acredita que o mundo, em toda sua possibilidade, é passível de mudança substancial – se nem mesmo o dia de amanhã nos é minimamente compreensível ou mesmo acessível, e se do mesmo modo, o pleiteante ainda não mudou a si próprio?

A questão é tão retórica quanto antifilosófica, o que me faz recordar ironicamente Paul Éluard: “Há outros mundos, mas estão neste.” Mudança, quando efetivamente existe, parte primeiro da humilde e demorada descoberta de si mesmo (de onde surge a percepção da fraqueza, da incompletude e da incompreensão perante a incomensurável realidade), o que traz consigo, inclusive, a possibilidade insuspeitada do equívoco. A partir daí irrompe a certeza de que o meio mais eficaz para desmascarar demagogos é o diálogo efetivo, cuja confirmação acerca de algo se dá imediatamente pela resistência à contrariedade. Como costumo afirmar: se queres desmascarar a retórica da tolerância, ouse contrariar alguém pretensamente tolerante. Aquilo que é incapaz de ser confrontado por razões passionais – pelas quais: inúmeras plateias se encantam -, encerra aquele apelo retórico de resistente senso passional: “Se non é vero, é bem trovato.” – Se não é verdade, é muito bem contado -.

IV.

Para arrematar, ao menos para mim, aquele esforço juvenil de outros mundos possíveis, cito Deirdre McCloskey: “Pegue tudo aquilo que você possa medir, e o que resta é o impacto daquilo que você não pode.” Um Professor Doutor que cede; em um auditório ou mesmo em uma sala de aula, à certeza de que a possibilidade última do Universo, tanto quanto as mínimas ações humanas são imprevisíveis, está a um passo da descoberta de que o espírito do conhecimento é renovável, e passível de correção. A autodescoberta de que a totalidade é inacessível à apreensão conceitual, favorece tanto a confrontação quanto os verdadeiros filósofos, sobretudo, ao encaminha-lo a um senso incansável de busca. Caso contrário, ao ser refutado: escreve um artigo e incrementa o currículo, ciente de que jamais será suficientemente lido ou compreendido, o que dá um ar inalcançável às suas verdades. Reconhecer humildemente seus próprios limites; confessar a si próprio suas fraquezas; estimar a beleza das certezas perenes, que se renovam intuitivamente no seio do diálogo, é o mister da atividade de um filósofo, algo que em seu sentido integral, assim complementaria Édouard Herriot: “é o que fica quando tudo mais já se esqueceu.” Aquilo que permanece revigorado, por que humildemente corrigido, não são os títulos acidentais de uma carreira acadêmica, mas a essência de um perquiridor da Verdade, ou melhor, sua nobreza. Uma ideia que não é sustentável nem no plano das antíteses – pois não é refutável -, nem no plano da realidade mesma, pode até envaidecer e encantar seus porta-vozes, mas não convoca à Verdade, que seria, em linhas gerais, a descoberta de uma evidência (apreensível universalmente, e que não se restringe à exclusiva vaidade de alguns iluminados) o que depende do grau de maturidade o qual se tem acesso a partir de si mesmo, alcançável: desde que efetivamente almejada, bem como partilhável por meio do diálogo.

Daí surge a questão: como professar algo, pretensamente verdadeiro, sem o empenho em vivê-lo integralmente, inclusive, assumindo seus riscos, quedas, fracassos e possíveis reformulações? Como não remoer-se após ter lido Elias Canetti, o que atesta a recorrente prática de inúmeros scholars, empenhados – não na busca por questões substancias: desdobráveis em gestos; ideias e na imediata presença, mas em notória promoção pessoal:

Eu me pergunto se, entre todos os que constroem uma vida acadêmica confortável, segura e regular a partir da existência de um autor que viveu na miséria e no desespero, existe um único que sinta vergonha de si mesmo.”.

Quanto mais amadurecido for um filósofo, mais acautelará seus discípulos à certeza de que a Verdade, que se almeja à distância, descansa especularmente dentro de quem a procura – como a honestidade e a firmeza de uma busca espiritual: ‘ – se és verdadeiro consigo mesmo: encontrá-la-á. Caso contrário afirmará incorrigivelmente que a verdade não existe e, num gesto de frustrada rebeldia, publicará um artigo para provar isto. ‘ Haveria algo mais decisivo que presenciar a demonstração efetiva de um filósofo vivo, cujas ações e pensamentos depreendem imediatamente esta certeza, que antecipam e abrilhantam seus eventuais escritos? Como descobrir a Verdade filosófica a partir de autores já sepultados, cujas vozes são apropriadas por especialistas não habituados ao dialógico confronto; à transparência de caráter, e, o que é muito pior: à distância confortável de envaidecidos papers para um círculo iniciático de uns poucos leitores? Em filosofia, bem como em todo conhecimento possível, uma Verdade – quando anunciada -, se impõe sem provas exteriores, ou seja, é imediatamente apreensível, de modo que, por estas vias, o esforço não é de ser publicado em alguma revista, mas vivê-la suficientemente a contento. Entretanto, aceita-la: pressupõe uma decisão livre, e envergadura intelectual para assumi-la, o que fomenta – pela via cômoda da covardia e consequente amesquinhamento -, a burocracia e a mediocridade, cuja observância contrapõe imediatamente o filósofo ao professor universitário (vide obra: ‘La philosophie médiévale‘ de Alain de Libera). Por não exigir provas para além de si mesma, e ser objetivamente desdobrável em um diálogo, a Verdade manifesta-se na coerência de quem a busca, logo, desde as menores ações – o que implica, deste modo, grandeza de espírito, presteza e por consequência: exemplaridade humana. Desta forma, um catedrático que remete um curioso aluno – por meios evasivos – à leitura de seus artigos tão insignificantes quanto monotemáticos, dá de pronto um atestado irrefutável de charlatanice intelectual, quando não de sectarismo: “– Procure-me apenas quando aprender alemão!” Não preciso notifica-los de que esta última frase, ao ser dita por um pós-Doutor em Marx; em uma grande Universidade de São Luís – apinhado de artigos publicados alhures, pretendia se encaminhar como uma refutação em plena sala de aula. No mais, ouse contraria-lo (…).

V.

Num empenho verdadeiramente filosófico: um dia, Denis – tirano de Siracusa – perguntou a Aristipo de Cirene para que lhe servia esse estranho conhecimento chamado: filosofia. De pronto, o filósofo respondeu: “Para conversar com todos os homens, livremente, sem temê-los.” Refeita na atualidade, creio que, perante um auditório apinhado de entusiasmados ouvintes, Aristipo replicaria, bradando ao microfone: “- Sabe com quem estás falando, Tirano? Leia os meus artigos!”.

Ivan Pessoa é professor de Filosofia com Mestrado em Ética e Epistemologia (UFPI-UERJ).

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