Eu e a música – Yeah, the blues

Por Augusto Pellegrini

Do final dos anos 1980 para cá, o Brasil se tornou um lugar bastante concorrido para a realização de festivais de rock, jazz e blues.

Mas nem sempre foi assim. Demorou algum tempo para que o público brasileiro viesse fazer parte do roteiro dos megafestivais de música.

Os festivais de rock faziam comercialmente mais sentido na época do que os seus congêneres de jazz, pois tinham como suporte de mídia alguns muito bem sucedidos encontros internacionais que eram produzidos mundo afora.

Isto não significa que o jazz não estivesse acontecendo no cenário mundial, mas parecia mais acertado apostar num movimento mais performático, como as bandas e os astros do rock mundial e os grandes espetáculos de luz e cor, do que numa música que privilegiava mais os ouvidos e a sensibilidade.

Talvez por possuir um apelo mais popular ou pelo fato de o seu surgimento ter sido mais recente – aconteceu durante os anos 1950, quando era chamado de rock and roll – o rock tinha uma boa penetração na classe jovem e era divulgado, embora ainda timidamente, em programas radiofônicos e festinhas de família, onde no final da década Bill Haley disputava espaço com Cely Campello. Isto não acontecia com o jazz e com o blues.

É bem verdade que na Era do Swing o jazz tinha programas radiofônicos com as grandes orquestras tocando ao vivo, mas isto mudou com o fim da Segunda Guerra Mundial e com a mudança da mentalidade da juventude rebelde de então.

Os jazzófilos e os bluesófilos, por se constituírem num público menor e mais maduro, e por consumirem uma música mais sofisticada, passaram a viver num quase completo anonimato, e se viam obrigados a acompanhar de longe as trajetórias do jazz e dos seus festivais mais famosos – Monterey EUA), New York (EUA), Newport (EUA), Montreux (Suiça), JVC (França), North Sea (Holanda) – através de reportagens de colunas especializadas de jornais ou revistas, ou pelos discos, cujas contracapas nos davam a noção do que se passava por lá, tudo documentado com as devidas fotos. Os discos muitas vezes traziam músicas gravadas ao vivo, o que adicionava uma emoção a mais ao ouvinte.

E a gente só sonhava, ainda que acordado.

De acordo com pesquisas não muito oficiais, o interesse que jazz e blues haviam despertado até então nos apreciadores de música era muito pequeno para que se pensasse num evento de largo consumo, mas essa barreira pouco a pouco foi sendo ultrapassada graças a alguns produtores arrojados que apostaram na inteligência do público e tiveram o apoio de patrocinadores fortes que puderam tornar a ideia viável.
Coincidentemente, e apesar das pesquisas e da diferença na aceitação popular, foi no mesmo ano que jazz e rock aconteceram pela primeira vez no Brasil para as grandes plateias.

A primeira edição do Rock in Rio foi realizada entre os dias 11 e 20 de janeiro de 1985 – evidentemente na cidade do Rio de Janeiro. Ela foi absolutamente marcante e contou com a presença dos internacionais Queen, Iron Maiden, Whitesnake, James Taylor, George Benson, Rod Stewart, Scorpions, Ozzy Osbourne, Nina Hagen e AC/DC, e dos nacionais Ivan Lins, Barão Vermelho, Baby Consuelo, Lulu Santos, Gilberto Gil, Erasmo Carlos, Ney Matogrosso e Kid Abelha, entre outros.

Por ter sido o primeiro, o Rock in Rio foi um evento que precisou de muito fôlego e coragem, mas correspondeu plenamente às expectativas.

O público total chegou a quase um milhão e quatrocentas mil pessoas e respondeu com entusiasmo à aposta do publicitário e produtor Roberto Medina, embora ele próprio tenha admitido que realizar o festival “foi uma maluquice”.

Mas o projeto Rock in Rio foi tão bem sucedido que acabaria se multiplicando nos anos seguintes – Rio de Janeiro em 1991 e 2001, Lisboa em 2004, 2006, 2008 e 2010 e Madri, 2006, 2008 e 2010, e assim segue em frente, sempre com o mesmo nome, o que acabou transformando o festival em uma lucrativa trademark.

Surpreendentemente, também em 1985 acontecia ao mesmo tempo no Rio e em São Paulo o primeiro Free Jazz Festival, patrocinado pela Companhia Souza Cruz, que aproveitou o nome de um dos estilos de jazz – o free jazz – para promover em grande estilo o lançamento da sua marca de cigarros Free, naquele tempo em que não existiam restrições para a sua propaganda.

A primeira edição mostrou atrações especialíssimas – entre elas Bobby McFerrin, Chet Baker, Gerry Mulligan, Ernie Watkins, Sonny Rollins, Pat Metheny, McCoy Tyner, Joe Pass, Hubert Laws, Phil Woods, Toots Thielemans, e os brasileiros Azymuth, Cesar Camargo, Egberto Gismonti, Leny Andrade, Luiz Eça, Orquestra Tabajara, Paulo Moura, Sérgio Dias, Zimbo Trio e Uatki, entre outros.

Em 1986 tivemos vinte e dois participantes, sendo quatorze brasileiros e oito internacionais, número que foi sendo mantido com o tempo até o fim do projeto em 2001 (o Free Jazz Festival foi descontinuado devido às leis antitabagistas e em 2003 foi substituído pelo TIM Festival, que perdeu a característica do projeto original e começou a focar um tipo de música alternativa, que inclui indie, eletrônica, rock e – felizmente – o próprio jazz).

Apesar de bastante popular, o Free Jazz Festival nunca chegou a causar o mesmo impacto do Rock in Rio, principalmente porque o rock tradicionalmente, em todo o mundo, sempre reuniu multidões em festivais que eram geralmente realizados em grandes áreas ao ar livre – vide Woodstock-NY, Altamond-Ca, Ilha de Wight-Inglaterra – ao passo que o jazz sempre teve um público menor, mais comportado e, pode-se dizer, mais exigente em termos de estrutura e conforto.

Foi nesse clima, em maio de 1990, que aconteceu o Segundo Festival de Blues no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo (o Primeiro Festival havia acontecido em Ribeirão Preto-SP, na Cava do Bosque, no ano anterior).

O festival teve a produção da LUKR Eventos, comandada por Roberto Cocenza. Também fazia parte da equipe meu amigo e parceiro Renato Winkler que, parodiando Vinicius, viajou muitas canções comigo, e havia interpretado o mestre violonista na película “A Busca E A Fuga”, mencionada no capítulo dedicado a Dick Farney.

Eu e Renato tivemos uma curta, mas profícua, história musical que havia começado em Serra Negra – SP, onde nos conhecemos em meados dos anos 1960. Começamos a compor juntos, e na maioria das nossas composições eu fazia a letra e ele colocava a música, ou eu colocava a letra numa melodia já feita, ou um pouco de cada coisa…

Se a sombra agora mora em mim,

o meu porquê há de virar canção…

(estou triste, triste tanto…)

Só o sorriso bom de uma manhã

fará nascer o meu sorriso sol…

(estou triste, triste tanto…)

Só o renascer de todo amor

que imenso foi, vai me fazer feliz

(vem beijar meu desencanto…)

Volta, faz brilhar novamente a lua,

aquela mesma lua

que iluminou nossa grande noite…

Só o teu olhar traz o luar

pra iluminar o meu anoitecer,

só teu olhar me faz amanhecer…

Por que virar canção se é tão real,

venha depressa disfarçar o mal,

motivação da minha vida e paz,

cante comigo o meu sorriso sol

e o amor manhã também renascerá…

(Amor Manhã – Augusto Pellegrini e Renato Winkler)

Renato possui uma harmonia diferente do convencional e passa para o ouvinte uma cadência bucólica. Ele é também um poeta de rara inspiração nas suas pinceladas cheias de um neologismo sagaz e de rimas no modelo haicai. É numerólogo nas horas vagas, tendo inclusive publicado um livro a respeito chamado “Guia Oracular – A Chave Do Poder Adivinhatório”.

Em termos de música, ao meu lado, foram doze composições ao longo de quatro anos, de 1970 a 1974, muitas delas regadas a muito vermute tinto com gelo, antes de a parceria ser interrompida pelo meu ingresso numa escola de samba, como mencionado no capítulo dedicado a Adoniran, e pela minha partida para São Luís – MA.

Em 1990 eu ainda morava em São Luís, onde estou até hoje, mas Renato insistiu para que eu fosse assistir ao festival em São Paulo e para tanto me enviou uma credencial de imprensa, dessas que a gente pendura no pescoço vinte e quatro horas por dia – “Pellegrini Augusto – Radio Mirante FM – São Luís-MA” – posto que eu era – e ainda sou – radialista especializado em jazz (e blues, embora nem tanto).

O festival transcorreu de uma forma empolgante e reuniu no mesmo espaço músicos antológicos como Magic Slim, Bo Diddley, Buddy Guy, Junior Wells, Koko Taylor, John Hammond, The Blues Machine, Big Daddy Kinsey & The Kinsey Report, Nick Nolte, e os blueseiros locais Ed Motta, André Christóvam e Blues Etílicos.

A grande vantagem de possuir uma credencial é poder ser uma sombra presente nas entrelinhas do espetáculo, nos bastidores, nos camarins, e no hotel onde a troupe se hospedava, onde via de regra acontecia alguma jam session para confraternizar o blues, além da possibilidade de entrevistas nem sempre exclusivas, mas sempre muito especiais, e a descoberta maravilhosa de que por trás dos artistas consagrados de escondem seres humanos cheios de história para contar.

Boa parte das histórias acabaram sendo descartáveis, e serviram  apenas para ilustrar alguns dos meus programas radiofônicos, mas uma conversa, em especial, ficou registrada, posto que histórica.

Bo Diddley, nascido Ellas Otha Bates, tinha na época sessenta e dois anos, embora aparentasse ter mais.

Ao contrário da maioria dos artistas presentes, que esbanjavam vitalidade, Diddley mantinha uma atitude melancólica e pouco sorridente, como se se ressentisse de alguma coisa, muito embora aparentemente tudo corresse às mil maravilhas na turnê blueseira. Bo Diddley era o “low profile” que não combinava com a vibração do evento.

Cantor, guitarrista, compositor (suas músicas eram assinadas como Ellas McDaniels), Bo Diddley com sua guitarra quadrada foi um dos elos mais importantes que uniu o blues ao rock and roll e influenciou, entre outros, os astros Buddy Holly, Jimi Hendrix, Eric Clapton e Elvis Presley, além dos Beatles e dos Rolling Stones. Foi exatamente a menção a Elvis Presley que esquentou o assunto e soltou a língua do velho bluesman.

Apesar de ser mundialmente reconhecido como um dos maiores artistas do blues e do rhythm & blues, Bo Diddley reclamava que a sua carreira poderia ter sido muito mais bem sucedida se alguns produtores de discos e de shows não tivessem interferido de forma tão negativa e decisiva no seu desenvolvimento.

Ele, Diddley, teria sido o pioneiro a mostrar nos palcos a famosa performance do “rebolado do rock and roll” que se imortalizou com Elvis e que os pudicos dos anos 1950 consideravam obsceno e atentatório aos bons costumes (mas que os jovens rebeldes sem causa simplesmente adoravam).

Possivelmente”, prosseguiu Diddley, “tenha sido um outro negro, Chuck Berry, quem realmente iniciou aquele tipo de dança lasciva, mas Berry podia ter tudo – ritmo, drive, empolgação – mas não conseguia passar para o público nem um pingo de malicia ou de sensualidade. Chuck era mais feio do que eu. E riu, pela primeira vez durante a nossa conversa.

Bo Didley era – na sua própria descrição – negro, feio e de baixa estatura, o que ia contra os padrões de beleza universalmente aceitos. A novidade era, porém, tão empolgante que os produtores de shows decidiram que o rebolado devia ser incrementado por um outro cantor, desde que fosse branco, bonito, atlético e sensual.
Assim, nos meados dos anos 1950, Bo Diddley foi descartado e caiu no limbo do rock and roll.

Os produtores saíram então em campo à cata do homem com o biótipo ideal que tivesse o DNA para vender discos e aguçar o espírito da juventude, e descobriram um jovem cantor e guitarrista natural do Mississipi que estava fazendo um relativo sucesso no rádio e na televisão cantando uma espécie de balladcountry e de rock-blues.

Seu nome era Elvis Presley, ex-motorista de caminhão que estourou para o grande público com o bluesThat’s All Right Mama” (Arthur Crudup) e “Blue Moon Of Kentucky” (originalmente uma valsa escrita em 1946 por Bill Monroe), músicas que receberam um tratamento diferente por parte do guitarrista Scotty Moore e do baixista acústico Bill Black, nascendo daí o estilo “rock-a-billy”, uma fusão de country com rhythm & blues.

Depois de uma série de baladas românticas, que no futuro iriam se constituir no ponto alto das suas interpretações – como “Love Me Tender” (George R.Poulton, W.W. Fosdick  e Ken Darby), “Lovin’ You” (Jerry Leiber e Mike Stoller) – o rebolado pra valer começou em 1957 com “Jailhouse Rock” e “King Creole” (ambas de Jerry Leiber e Mike Stoller).

De acordo com Diddley, foi aí que os produtores “roubaram” a sua ideia e que um eventual título, “The King of Rock‘n’Roll”, lhe teria sido usurpado.

O depoimento histórico foi encerrado abruptamente com a chegada de alguém da produção convocando Diddley para uma foto, a pedido de um repórter.  Não tenho certeza, mas ficou a impressão de que sobrou no rosto do velho bluesman um certo ar de alívio quando ele se despediu de mim, o que provavelmente acontecia por quase quarenta anos sempre que seu coração se abria para algum desconhecido.

Augusto Pellegrini é escritor, músico, jornalista e radialista. Autor dos livros Jazz: das raízes ao pós-bop (Códex, 2004) e do inédito A era do swing, a ser editado pela Resistência Cultural. Apresenta o programa Sexta Jazz, na Rádio Universidade.

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