Brasiliana IHGB: um valioso presente à memória nacional

Por Dyêgo Martins

São raras as oportunidades nas quais o mercado editorial brasileiro oferta ao público leitor o que Richard de Bury i definiu no seu Philobiblon como “pérolas” bibliográficas. ii Livros que não se resumem a repositórios de informações, mas despertam o legítimo amor ao conhecimento e, na qualidade de objetos que afetam a sensibilidade, podem ser comparados a verdadeiras obras de arte, em razão de notório valor estético, histórico ou literário.

Alguns livros são publicados a trouxe-mouxe, filhos apressados do furor publicandi acadêmico, sempre ávido de novidades estrepitantes que não tardarão a impressionar a intelligentsia nacional e, consequentemente, impulsionar as vendas. Ignora-se, porém, a qualidade na produção e a função do livro como elemento fundamental da cultura, capaz de proporcionar prazer associado a uma “prática confortável de leitura” que permite “vacilar as bases históricas, culturais, psicológicas do leitor”, no dizer de Roland Barthes. iii

Não é o caso da Brasiliana IHGB, publicação da editora Capivara que celebra os 175 anos do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), fundado em 21 de outubro de 1838, para “coligir, metodizar, publicar ou arquivar os documentos necessários para a História e Geografia do Brasil”, conforme os objetivos elencados no Artigo 1º de seu Estatuto. Digno de menção que no mesmo ano de criação do IHGB também foram fundados o Arquivo Nacional e o Colégio Pedro II, instituições que, a par do Instituto Histórico, simbolizaram os esforços do Império do Brasil para fomentar a política cultural e a formação de uma intelectualidade nacional.

Não por acaso Dom Pedro II – que obteve a maioridade dois anos depois da fundação do IHGB – foi patrono da instituição por meio século, acompanhando com entusiasmo todas as atividades e presidindo mais de quinhentas sessões. Deve-se ao imperador o primeiro impulso para a formação de um acervo inestimável, enriquecido com o passar dos anos por iniciativas e doações, inclusive aquelas do próprio monarca: as coleções von Martius e Tereza Cristina são inestimáveis presentes de Pedro II ao país que tanto amara, contribuindo para o pleno desenvolvimento material e cultural da Nação até a abrupta interrupção de seu reinado.

O livro segue o formato da Brasiliana Itaú, publicada em 2009 pela mesma casa, que inventariou o fabuloso acervo formado pelo grande industrial, banqueiro e político Olavo Setúbal. Igualmente em comum as brasilianas têm o organizador, Pedro Corrêa do Lago, economista, ex-presidente da Biblioteca Nacional. Erudito que transita com destreza por áreas variadas: da curadoria à bibliofilia, do colecionismo à fotografia. Pela Capivara, Corrêa do Lago recentemente organizou dois volumes primorosos: Debret e o Brasil – obra completa e a Coleção Princesa Isabel – fotografia do século XIX, ambas publicadas em 2013.

Voltando à Brasiliana IHGB: uma comissão formada por membros do instituto foi designada para acompanhar o projeto editorial, o que garantiu a expertise necessária para a catalogação e crítica dos objetos que compõem o acervo, disposto no livro à semelhança de seu antecessor congênere, dividido em cinco categorias principais: Obras de Arte; Livros e Impressos; Documentos Manuscritos; Cartografia e Fotografia. Foram acrescidas categorias menores, mas não menos relevantes, a saber: Heráldica; Numismática e Medalhística; Efêmera e Objetos Históricos. Por fim, a categoria intitulada IHGBiana contempla parte do acervo diretamente ligada à história e preservação da memória do instituto.

O livro tem prefácio do organizador, que sintetiza a gênese e o plano da obra, traçando um perfil da Brasiliana como edição comemorativa, livro de arte, coletânea e fonte de pesquisa. A introdução é do historiador Arno Wheling, atual presidente do IHGB. No texto, Wheling destaca o perfil pluridimensional do instituto que, além da História e Geografia, volta seu olhar para as demais ciências sociais e temas brasileiros, o que define suas dimensões ética e científica, seu caráter acadêmico e cidadão.

Em seguida, diante dos olhos do leitor tem início o desfile das diferentes categorias através das quais o acervo é organizado no corpo da obra. Cada seção é antecedida por um comentário introdutório assinado por um sócio do instituto, o que reforça a preocupação da comissão organizadora em tornar a Brasiliana IHGB não apenas um livro de arte, mas fonte de pesquisa para profissionais, acadêmicos e público.

O acervo de obras de arte do instituto não se restringe a contar sua história desde a fundação. Formado a partir de doações dos sócios, o conjunto possui peças que contribuíram para desenvolvimento das artes plásticas no país e obras de expoentes nacionais como Manuel Dias de Oliveira, José Leandro de Carvalho e Manuel de Araújo Porto-Alegre; e estrangeiros, como Emil Bauch, François-René Moreaux e Ferdinand Krumholz.

Destaque para o pintor neerlandês Frans Post, primeiro artista europeu a retratar a paisagem das Américas. Seu “Ruínas da Sé de Olinda”, óleo sobre tela de 1665, adquirido pela família do visconde de Cavalcanti no final do século XIX, é uma das preciosidades do acervo. A ele juntam-se duas obras monumentais: o Painel da Coroação de Dom Pedro II, de Araújo Porto-Alegre (que ornamenta o Salão Nobre do instituto) e a Alegoria ao Nascimento de Dona Maria da Glória, de Manuel Dias de Oliveira.

Não passa despercebida a miniatura a óleo sobre cartão, anônima, que retrata o poeta Cláudio Manuel da Costa, único retrato contemporâneo de um inconfidente, uma verdadeira relíquia! Também admiráveis são as cópias dos retratos etnográficos compostos pelo alemão Albert Eckhout, no século XVI, e encomendadas por Dom Pedro II a Niels Lützen, após o imperador ter se encantado com as telas, expostas no Museu Nacional da Dinamarca, e que retratam romanticamente os índios brasileiros.

De outra parte, os retratos de Pedro II são verdadeiros exercícios de representação da sua personalidade enigmática, seja na plenitude, como nas telas de Édouard Viénot e Victor Meirelles ou na melancólica expressão capturada por Karl Ernst Papf, no ocaso do Império. Somam-se a tais peças retratos a tinta e decalque do álbum de Luís Aleixo Boulanger; alegorias setecentistas de Antônio Francisco Soares; esboços e aquarelas de Araújo Porto-Alegre; desenhos históricos de Henrique Fleuiss; registros cotidianos do Império e República; plantas e desenhos arquitetônicos.

O volume também relaciona onze peças notáveis do acervo de esculturas, com destaque para criações de mestres como Auguste Taunay, Zéphyrin Ferrez, Augusto Pettrich e, claro, Rodolfo Bernardelli. Há uma seção que apresenta raras gravuras de eventos históricos; outra que traz finos exemplares de louças, porcelanas e cristais dos séculos XVIII a XX e, por fim, peças de arte sacra e arte popular.

A categoria Livros e Impressos é uma das mais ricas em itens de inestimável valor histórico, que despertam grande interesse dos estudiosos que costumam visitar a Biblioteca e Hemeroteca do instituto. Em razão da diversidade do conjunto, foi dividida em sete seções: Brasiliana Clássica; Tipografia no Brasil e no Século XIX; Literatura Brasileira; Livros, Periódicos e Gravuras do Século XX; Livros de Artista; Encadernação no Brasil e Livros Portugueses.

Destaque para a biblioteca do médico, antropólogo e botânico Carl Friedrich Philipp von Martius − adquirida e doada ao IHGB por Dom Pedro II − fantástica coleção de obras relacionadas às Américas, tais como Quattuor Americi Vesputti Navigationes (1507), do cartógrafo alemão Martin Waldseemüller, primeiro impresso no qual a palavra “América” é utilizada para se referir à quarta parte do mundo. Outra raridade: um dos exemplares da obra Explicacíon de el Catechismo en Lengua Guarani, do jesuíta Nicolas Yapuguay, tipografada, ilustrada e impressa em 1724 por índios do povoado de Santa Maria La Mayor, durante as missões jesuíticas no Paraguai.

Merece especial deferência a Coleção Teresa Cristina, doada por Dom Pedro II ao instituto. Dentre os impressos estão raridades da tipografia brasileira do século XIX como a Relação dos Despachos, primeiro impresso autorizado no Brasil (1808) e a Gazeta do Rio de Janeiro, primeiro periódico oficial do país (1808-1822).

Algumas edições notáveis da literatura brasileira também fazem parte da coleção: um exemplar de A Confederação dos Tamoyos (1856), poema de Gonçalves de Magalhães, oferecido ao instituto pelo próprio Imperador; La Retraite de Laguna (1868), igualmente oferecido ao IHGB por Alfredo d’Escragnolle Taunay. O mesmo ocorre com a primeira edição de Contrastes e confrontos (1907), dedicada de próprio punho por Euclydes da Cunha.

A edições especialíssimas, como a primeira d’Os Lusíadas (1572), também oferecida por Pedro II, e Memorias Posthumas de Braz Cubas, com ilustrações de Cândido Portinari (edição dos Cem Bibliófilos do Brasil), somam-se álbuns, periódicos, jornais, revistas ilustradas, partituras e gravuras do século XX, além de luxuosas e bem elaboradas encadernações imperiais e obras de autoria ou anotadas pelo próprio imperador.

Os documentos manuscritos estão dispostos em diferentes seções, de acordo com a procedência: Arquivos Presidenciais; Acervos de Figuras Políticas; Acervos da Cultura Nacional; Coleção IHGB e Documentos da Escravidão. Manuscritos do período colonial, a exemplo da sentença do Tribunal do Santo Oficio contra o padre Antônio Vieira, dividem páginas com a correspondência da família imperial, papéis relacionados a figuras públicas do Império e República e eventos históricos, tais como a Inconfidência Mineira ou a Abolição da Escravatura.

Abrilhantam o acervo os arquivos provenientes de doações das famílias de quatro presidentes brasileiros: Prudente de Morais, Rodrigues Alves, Epitácio Pessoa e Emílio Garrastazu Médici. O arquivo do general Médici é, seguramente, um dos mais aguardados pelos historiadores e demais pesquisadores da história republicana recente. Documentos particulares (alguns inéditos) revelam aspectos da personalidade do presidente, acontecimentos políticos e a rotina administrativa do regime militar (1964-1985). De relevo, trechos de relatórios reservados e registros de correspondência mantida com autoridades e figuras públicas: de Gilberto Freyre a Otávio Gouveia de Bulhões, de Pelé a Dom Paulo Evaristo Arns.

A coleção cartográfica da biblioteca é formada por cerca de oito mil mapas manuscritos, em pergaminho, metal ou litogravados, que contam a história da formação territorial brasileira dos séculos XVI a XX. Destaque para o exemplar do fabuloso Livro que dá Razão do Estado do Brasil (1624), códice com texto atribuído a Diogo de Campos Moreno que contém vinte e três pinturas iluminadas de mapas da costa brasileira, elaborados pelo cosmógrafo real João Teixeira Albernaz, o Velho.

Por sua vez, a magnífica coleção de fotografias conservada pelo instituto reúne registros de mestres do século XIX, tais como Augusto Stahl, João Ferreira Villela, Augusto Amoretty, Revert Klumb, Marc Ferrez; e do século XX, especialmente Augusto Malta. O acervo deste último impressiona, com mais de duzentas imagens doadas por sócios do instituto. O conjunto abrange desde cartes de visite (maior coleção do país) a postais e registros de personalidades da política e cultura, além dos tradicionais álbuns dos estados brasileiros. Não restam dúvidas de que se trata de uma inesgotável fonte de consulta para os pesquisadores da história do gênero fotográfico no Brasil.

As categorias menores da Brasiliana IHGB levam o leitor a conhecer os costumes do Brasil nos séculos XIX e XX: memorabilia política, cardápios, cartazes, panfletos, bilhetes, cartões, flâmulas, registros sonoros, ex-libris. A Efêmera reúne um conjunto de objetos conservados por seus donos ao longo de décadas, sonho de consumo da maioria das lojas de penhores e antiquários, estabelecimentos cada vez mais escassos em nosso país, infelizmente.

Os objetos históricos conservados resgatam o fascínio dos membros do instituto pela história natural, desde a fundação. Prova disso é o grande número de naturalistas que foram sócios efetivos ou correspondentes: de Auguste de Saint-Hillaire a Emil Goeldi. O rico acervo está organizado na Brasiliana IHGB em sete seções: Paleontologia; Lápides; Elementos Arquitetônicos; Pertences Imperiais; Mobiliário; Militaria e Máscaras Mortuárias.

A Numismática ocupa um espaço relativamente pequeno na publicação, tendo em vista que o Museu Histórico Nacional é responsável por conservar a maior parte do acervo do país. Ainda assim, a Brasiliana relaciona algumas moedas importantes do período colonial, sobretudo dos anos de ocupação holandesa. Quanto à Medalhística, que forma com a Numismática a penúltima categoria, são apresentados exemplares de peças comemorativas, nacionais e estrangeiras, dos períodos imperial e republicano, bem como luxuosas condecorações honoríficas e distinções acadêmicas.

A última categoria, intitulada IHGBiana, como extensão do título principal, contém o acervo relativo ao instituto e seus sócios, acumulado ao longo de décadas de funcionamento: itens que vão de documentos, fotografias, objetos e mobiliário à coleção completa das revistas do IHGB. Os materiais registram o trabalho de investigação científica e atividades culturais do instituto, bem como constituem farto material de pesquisa histórica, verdadeiro legado para as futuras gerações de profissionais da área.

Como definir a importância de um livro? No primeiro capítulo d’O bibliófilo aprendiz, iv Rubens Borba de Moraes relembra a historieta que narra o encontro entre um poeta francês e um rico banqueiro que questionava a utilidade da poesia, ao que o vate replicou: “Para o senhor, não serve para nada”. Igualmente é um vão exercício procurar a grandeza de um livro em sua utilidade, no que ele se presta a fornecer de valor imediato.

Isto posto, cabe afiançar que a Brasiliana IHGB se distancia da mera definição de “livro de arte”, classificação corriqueira atribuída a publicações que se destinam a simplesmente coligir as peças de um acervo artístico. Do mesmo modo, o volume não se resume a um mero catálogo: é obra fundamental, de referência para qualquer estudioso das Humanidades, ou mesmo aqueles que desconheciam a riqueza do acervo do instituto.

O livro proporciona horas intermináveis de agradável leitura, aproximando-nos dos fatos e personagens que construíram a história do Brasil. Por fim, torna-nos íntimos de nossa própria história, reafirmando o compromisso centenário da instituição, ao reforçar o ideal de cultura humanista advogado por seu patrono, Dom Pedro II, figura de proa no desenvolvimento do instituto nos primeiros anos de funcionamento e que a ele confiou o depósito de um patrimônio de valor incomensurável.

Que o espírito do Imperador Cidadão permaneça vivo entre os que, apesar do atual cenário desanimador da cultura brasileira, ainda se ocupam da preservação da memória nacional. Nossos agradecimentos ao IHGB e à Editora Capivara pelo magnífico presente a todos os amantes da história do país.

Dyego Martins é historiador, ensaísta e bibliófilo. Especialista em História do Brasil e Mestre em Cultura e Sociedade.

i  Richard de Bury, Ricardo de Bury, Richard Aungerville ou Richard Aungervyle (1287-1345). Bispo beneditino de Durham, Inglaterra. Chanceler inglês entre os séculos XI e XII. Escritor e bibliófilo, foi um dos maiores colecionadores de livros de sua época.

ii “E embora saibamos que os porcos desprezam as pérolas, nada impedirá ao homem prudente aceitar as pérolas que lhe são oferecidas. Assim, uma biblioteca de sabedoria é mais preciosa do que todas as riquezas (…)” (BURY, Ricardo de. Philobiblon ou O Amigo do Livro. São Paulo: Ateliê Editorial, 2007, p. 34).

iii ‘Texto de prazer: aquele que contenta, enche, dá euforia; aquele que vem da cultura, não rompe com ela, está ligado a uma prática confortável da leitura. Texto de fruição: aquele que põe em estado de perda, aquele que desconforta (talvez até um certo enfado), faz vacilar as bases históricas, culturais, psicológicas do leitor, a consistência de seus gostos, de seus valores e de suas lembranças(…)” (BARTHES, Roland. O prazer do texto. 3. ed. São Paulo: Perspectiva, 2002, p.20-21)

iv MORAES, Rubens Borba de. O bibliófilo aprendiz. 4ª ed. Brasília, DF: Briquet de Lemos/Livros; Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2005.

Comments

comments

Um comentário em “Brasiliana IHGB: um valioso presente à memória nacional

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *