A fé e a arte em Joaquim Nabuco

Por Ângelo Monteiro

Prefácio à nova edição do livro Minha Fé, de Joaquim Nabuco, publicada pela Fundação Joaquim Nabuco / Ed. Massangana em 2013. Minha Fé é o relato de conversão do chefe do movimento abolicionista brasileiro ao catolicismo romano.

Há um passo curioso na Autobiografia de Chesterton, que talvez possa servir de ilustração para a conversão de Joaquim Nabuco ao catolicismo no apagar das luzes do Império, no Brasil, e no começo da sua surdez para as vozes mais rumorosas do mundo, qual se ela não fora outra coisa senão o resultado das mágicas de Deus: “Fiquei contente, e não descontente, quando descobri que figuras mágicas poderiam ser movidas por três dedos humanos. E eu estava certo, pois três dedos humanos são mais mágicos que quaisquer figuras mágicas, os três dedos que seguram a caneta, a espada e o arco do violino, aqueles três dedos que o padre ergue na bênção como o emblema da Santíssima Trindade. Na minha cabeça não havia conflito entre as duas mágicas”.

Autor de obras fundamentais para a nossa cultura como Minha formação, Um estadista do Império e O abolicionismo, Joaquim Nabuco é uma das figuras mais emblemáticas da história nacional e, sob diversos ângulos, um homem de mente que nunca se confinou às limitações programáticas de qualquer ideologia, porque atenta e aberta a todas as manifestações do pensamento. Dessa forma sua conversão se fez na confluência dos dois sentidos: o ético e o estético. O ético, por meio dos contatos com os escravos desde a infância, antes de assumir a causa da Abolição, como nos evoca em Minha formação: “o muezzin íntimo, o timbre que soa aos meus ouvidos à hora da oração, é o pequeno sino que os escravos escutavam com a cabeça baixa, murmurando o Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!”

Em seu livro sobre a conversão, escrito originalmente em francês sob o título Foi Voulue, e traduzido para o português por Aída Batista du Val, por sugestão do D.Basílio Penido O. S. B., também nos declara: “A mais autêntica nobreza aos olhos de Deus é a das gerações de mártires que se sucederam no cativeiro. Os Santos Pretos! Possam ser eles sempre os interlocutores por nossa Terra, que jamais cessaram de abençoar com seu amor, embora a tivessem regado de lágrimas”.

Já o sentido estético se processou à luz da simbólica quando, por exemplo, concebia a missa como “a miniatura da Ceia”, ou quando a chama “esse poema sem palavras”; ou quando, ainda, profere que “a fé cristã não poderia crescer durante cinco séculos no seio do politeísmo, esse grande criador de símbolos, sem salvar, no dia do naufrágio, uma parte da riqueza submersa”. E, ao voltarmos ao sentido ético que norteava sua carreira política e diplomática, não devemos esquecer que não há cristianismo que, inclusive, em sua ação missionária, não comece nem termine pelo social: da comunidade dos membros da Igreja à Comunhão dos santos. Quando vemos a esquerda marxista, historicamente, açambarcar, sem o menor escrúpulo, a mensagem social originária do cristianismo, é que ela contou naturalmente com o abandono ou o desprezo por parte daqueles que deveriam ser seus maiores depositários e defensores. Joaquim Nabuco encontrou justamente essa mensagem na defesa dos escravos, de uma vez que a preocupação com tais deserdados e oprimidos lhe era inseparável da compaixão sentida e vivida no contato com eles, a ponto de considerá-los os agentes principais de sua conversão.

Mas, ao lado dessa visão social, como já assinalamos, jamais houve nele a ausência de uma visão estética, pois foi justamente a estética do culto católico que o ajudou na volta ao seio da Igreja, propiciando o reencontro de sua fé de criança e o consequente abandono da influência, de cunho marcadamente esteticista, recebida por meio da Vida de Jesus do escritor francês Ernest Renan. Sua filha, Carolina Nabuco, no livro Vida de Joaquim Nabuco, além de apontar no pai o respeito dele pelas tradições, bem como pela muito pouco aristocrática voz das massas, assim se pronuncia sobre a sua conversão: “Foi pela imaginação que a Igreja Romana o prendeu. Sua inteligência, naturalmente, se inclinava perante a majestade de uma organização capaz de triunfar durante tantos séculos, a despeito da vicissitudes humanas e das pequenas fraquezas individuais. Mas a atração decisiva foi a do culto exterior. O catolicismo apelaria para o que havia nele, não de misticismo, mas de idealismo poético”.

Dada a complexidade de seu espírito, entretanto, essa volta à Igreja não poderia ser algo despido de poderosas convicções, depois de ter sido tocado, na juventude, pelos ventos de tantas doutrinas científicas e filosóficas, e, principalmente, pela figura histórica de Jesus Cristo idealizada por Renan. Ninguém descreveu, até hoje, a missa melhor do que ele: “Ela, parece, então, aos nossos olhos, um mosaico bizantino resplandecente de ouro, onde teriam sido aplicados, em pedras preciosas, os anjos, os santos, os profetas, os mártires, as virgens, os pontífices, formando signos do zodíaco divino, no qual se move a hóstia branca, o sol interior das almas. O Hoc est corpus meum resplandece, com efeito, no centro dessa composição ímpar”.

A essa estética, expressa tão maravilhosamente pela missa, não esquece de contrapor, numa espécie de fértil contraste, a face ética do cristianismo: “A morte de Deus transforma a humanidade em um único corpo. Se Deus morreu por ela, que vida seria tão preciosa para lhe ser doravante recusada? (…) É a lei da total solidariedade humana que se acha simbolizada pela Cruz em que Deus se ofereceu pelo homem, em substituição ao homem”. E nos mostrando o caráter eminentemente social desse resgate, e não individualista ou privilegiado, nos lança estas perguntas significativas: “Como seria possível a Deus sofrer e morrer pelo homem senão como Ele o fez, como homem e homem ínfimo? Como lhe seria possível fazer do Seu sangue o resgate da humanidade, caso se houvesse identificado com a aristocracia da Terra e não com os pobres e os oprimidos, que formarão sua Corte no céu”?

Além dos problemas suscitados no autor pelo mistério da Redenção, uma série de lições importantes iremos descobrir em Minha fé, como em seu comentário sobre a destruição da herança pagã durante a invasão dos bárbaros em Roma: “Seja qual for sua responsabilidade, a religião cristã pode afirmar que, se não impediu a perda das obras de arte da antiguidade, tentou salvar o patrimônio moral da humanidade e prepará-lo para a colheita, capaz não só de compensar a floração estética perdida como também de reproduzi-la, um dia, sob outras formas. O valor das obras primas destruídas é incomparável, mas o valor da moralidade salva de muito o ultrapassa. A arte antiga era uma flor cuja haste secara muito antes do aparecimento de Cristo”. Ou o comentário insuperável sobre a Idade Média no círculo da influência cristã: “A Terra, durante essa noite de mil anos, não mais parece o satélite do sol, mas da lua, tão diversa é a claridade amortecida que se espalha sobre tudo: mas da meia-noite encantada exala-se um perfume ideal que Deus aspirará eternamente”.

Por todas essas razões Nabuco fazia depender a Fé não das concordâncias com o exterior mas da mais profunda interioridade: “Eu acreditava sem nenhuma contestação interior. Diante dos meus olhos existia apenas o Crucifixo”. Também acerca do papel da ciência, a sua posição permanece válida para todas as épocas: “A ciência não pode impedir que alguns dos seus colaboradores se lancem em hipóteses ateístas: mas nada em sua caminhada sugere a ideia de que deve arrematar sua obra com a eliminação de Deus. Se ela terminasse assim, a humanidade teria descrito um movimento no sentido inverso ao da criação”. A experiência religiosa de Nabuco nos conduz, dessa forma, a uma dupla realidade: a de que é impossível uma fé direcionada apenas ao outro mundo, sem nenhuma preocupação com os problemas humanos e sociais, assim com aquela despida totalmente de sedução estética, desprezando o apelo de todos os nossos sentidos. Como ele era um grande escritor, ainda quando não exclusivamente literário, se mantinha sempre em diálogo com o mundo já que, afora o pensador, não cessava a atuação do diplomata e o político em defesa das grandes causas do seu país e do seu tempo.

O homem que batalhou pela Abolição e que, como deputado pelo Recife, conseguiu, em 1887, em audiência no Vaticano, que o Papa Leão XIII publicasse uma encíclica contra a escravidão dirigida, em tempo oportuno, aos bispos do Brasil, não se distingue daquele em que a fantasia prevalece sobre a razão, ou que busca constantemente uma conciliação entre fé e ciência — como, posteriormente, tentariam pensadores do porte de um Teilhard de Chardin — ou uma impossível conciliação entre A imitação de Cristo e a filosofia platônica. Não podemos esquecer, sob esse aspecto, uma de suas mais notáveis definições em Minha fé: “O meu cristianismo é o Platonismo acrescentado com a morte de Deus pelo homem”, que parece ecoar um Nietzsche que, muito provavelmente, ele desconhecia; e, ao mesmo tempo, fazendo-nos lembrar a morte de Deus por meio da crucificação de Jesus.

Algumas perguntas do pensador mantêm ainda sua atualidade, como a que diz respeito à sua concepção de Deus: “Esse Deus cujo espírito para mim é inseparável da criação e da minha própria consciência — como o imaginava eu? Seria Ele mesmo o criador de tudo, ou tudo permanecia tão abaixo dele que não existia possibilidade de relação direta entre o infinito e a matéria?” No entanto a quem fazia perguntas desse tipo não haveria de escapar, também, que “parecia evidente que Deus não quisesse dar provas físicas de sua existência. E por que exigiria eu tal prova, já que possuía o amor, sentimento dotado de objeto próprio e, portanto, por si mesmo comprovado?”

Quanto ao papel da religião e de Deus na vida dos homens, a despeito das conclusões previsivelmente contrárias da ciência, não deixa de ser indiscutível a seguinte conclusão a que ele chegou: “Cada vez que a ciência julgou decompor um mito ou interpretar um símbolo, encontrou sob ele algo de imortal. Não foi o homem quem inventou a religião: a religião, como a linguagem, precede na estrutura o pensamento que a utiliza”.

De permeio às vogas científicas e filosóficas, a influência de Renan, a partir de sua juventude, passa por uma curiosa transformação, no auge de sua maturidade, como nos permite ver num trecho de Minha fé, ao falar da imagem de Jesus por ele recebida através do escritor francês: “Seu pedestal não era mais o céu, era a terra. Ele ficaria perpetuamente sendo o líder moral: em lugar do filho de Deus, seria o primeiro dos seus criadores. Embalsamavam-no numa segunda vez e para sempre, com essência mais preciosa que o arômata de Nicodemos. Com a mesma piedade com que o haviam descido da Cruz, no Calvário, desciam-no da sua divindade no século XIX”.

Minha fé é, em primeiro lugar, uma reflexão sobre a Fé — e o seu mistério — que lhe surge, com mais força, a partir do convívio com os jesuítas, na Igreja do Oratório, em Londres. Segundo sua opinião Renan conservou-lhe o calor, ainda que um tanto amortecido, da Fé: “Sem Renan eu não teria durante todo meu exílio, aquela nostalgia da fé perdida, que experimentam apenas aqueles a quem Deus reservou a graça da volta”. Coube, entretanto, aos jesuítas, a inteira devolução dessa fé. E tal devolução é reconhecida, de maneira plena, neste depoimento: “Mas chegou o dia em que, à semelhança da planta que busca o sol para não morrer, senti a necessidade quase física de me voltar para a verdade absoluta”. Em Nabuco o ético nunca se viu separado do estético, embora este espalhe melhor sua luz na emoção religiosa e na afirmação da beleza presente nas coisas.

Daí o poder da liturgia católica em seu espírito quando começou a frequentar a igreja dos jesuítas: “para orná-la a igreja não tinha, em verdade, senão o recolhimento da assistência, o coro angélico das crianças, a maravilhosa execução da liturgia e, por esse motivo, minha atenção se concentrava mais facilmente nas cerimônias e tentava compreender-lhes o sentido. Foi aí que o simbolismo se me apresentou como expressão suprema da arte, aquela que emprega todas as outras a seu serviço, ou antes, a serviço de Deus. À medida que eu compreendi essa nova linguagem, a missa me parecia, cada vez mais, uma obra prima incomparável”.

Essa distinção, constantemente retomada, entre religião e ciência, de certo modo também se coloca entre a filosofia e a arte, o que só vem comprovar uma dimensão metafísica que perpassa a realidade, em suas diversas formas, transcendendo-a. A fé, enquanto conquista da Graça, assim como a inspiração na arte e a intuição na filosofia, nunca poderão se reduzir a limitações meramente conjunturais. Por isso nunca deixou de haver uma relação substancial entre a fé e a arte, relação de que dependem tanto as orações que se dirigem à divindade, quanto as liturgias que refletem as imagens divinas mais próximas da terra. Não faltam, desse modo, todas as razões ao Chesterton da Autobiografia: “Existe uma espécie de conto cuja narração é mais apropriada ao calor da lareira que ao altar, e nele o que se chama Natureza pode ser uma espécie de fada madrinha. Mas só podem existir fadas madrinhas porque existem madrinhas, e só podem existir madrinhas porque Deus existe”.

A erradicação do divino, no plano quer da natureza, quer da cultura, aprofundou mais ainda o vazio entre os homens e os demais seres: o que nos fará entender porque a compreensão de Deus em Joaquim Nabuco constitui a chave de toda compreensão possível da realidade.

Recife, 17 de outubro de 2013

Ângelo Monteiro é poeta e ensaísta. Catedrático (aposentado) de Estética da Universidade Federal de Pernambuco e membro da Academia Pernambucana de Letras. Publicou, entre mais de 30 livros, Arte ou desastre – ensaios (É Realizações, 2011) e O ignorado – poesia (Resistência Cultural, 2012).

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