A eternidade em José Chagas

Por Ângelo Monteiro

Como os poetas morrem mais que os outros quando morrem, porque, em cada um que se vai, também se despede uma ideia de criação, José Chagas chega ao fim em absoluta sintonia com a poética definição de Esman Dias: “Morre o poeta./E morre o mundo inteiro”. Entretanto, ao partir do nosso convívio, deixou uma obra que – como a de seu amigo Nauro Machado, de diferente índole criadora mas de igual estatura – constitui um monumento inquebrantável da poesia brasileira no século XX. Foi através de Colégio do vento – seu primeiro livro que conheci – que comecei a entrar em contato com essa obra, e fiquei tão impressionado com sua grandeza lírica que empreendi uma viagem a São Luís, no início da década de 80, para conhecer o Poeta. Não é com frequência que nos vemos arrebatados dessa forma pelo sopro criador de uma poética como a de José Chagas, que abrange tantos títulos como o assombroso de Alcântara, Tabuada da memória e Os canhões do silêncio.

É nos quarenta sonetos de Colégio do vento, no entanto, que sua memória enquanto homem e enquanto poeta se encontra mais presente: porque é nela que certas vivências apontam, ao mesmo tempo, para as suas origens e para o destino que haveria fatalmente de escolher – o de semeador de palavras. Sobre as suas origens, inclusive sociais, duas passagens são bastante significativas: a do final do soneto 12, que assim reza: “um nome tão de santo, mas sem brilho,/hoje muito mais chagas que José”; e a contida nos dois versos que iniciam o soneto 21: “Meu pai em seu cavalo segue lento/pela estrada da aldeia e eu vou atrás”. Já sobre o destino do artista, além da sombra protetora do pai, se ergue, arquetipicamente, a representação de outro tipo de lavoura, como nos sugerem com muita força os dois versos com que principia o soneto 13: “Muito cedo plantei o arroz real/e o arroz do sonho era o que mais crescia”.

O incomparável José Chagas que, em seu discurso de posse na Academia Maranhense de Letras, afirmou ter chegado a São Luís “puxando a cachorra da poesia”, não deixará de puxá-la, queira Deus, por toda a eternidade. Pois sendo nele a grandeza do poeta inseparável da do homem, só restará aos seus amigos e admiradores a imagem silenciosa de sua presença já sob diferente luz.

 

Ângelo Monteiro é poeta e ensaísta. Catedrático (aposentado) de Estética da Universidade Federal de Pernambuco e membro da Academia Pernambucana de Letras. Publicou, entre mais de 30 livros, Arte ou desastre – ensaios (É Realizações, 2011) e O ignorado – poesia (Resistência Cultural, 2012). E-mail: a.jmonteiro7@gmail.com.

 

Lourival Souza é presidente do Instituto Expresso Liberdade, colaborador da Associação Cultural São Thomas More, graduado em gestão financeira, tem experiência no mercado de investimentos e educação, é mestrando em Economia Política pelo Swiss Management Center e ex-presidente da Federação Maranhense de Empresas Juniores.

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Lourival Souza

Lourival Souza é presidente do Instituto Expresso Liberdade, colaborador da Associação Cultural São Thomas More, graduado em gestão financeira, tem experiência no mercado de investimentos e educação, é mestrando em Economia Política pelo Swiss Management Center e ex-presidente da Federação Maranhense de Empresas Juniores.

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